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Dílson Ferreira é administrador de empresas e advogado, com pós-graduação em Análise Financeira pela University of Delaware, nos Estados Unidos. O executivo preside a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) desde 1999. Antes de assumir o comando da entidade, acumulou 33 anos de experiência no setor químico e de tintas e vernizes.

05/11/2010


INDÚSTRIA


Setor de tintas busca manter meta de crescimento acima do PIB



Profissionalização é prioridade: expectativa é preparar 500 mil pintores até 2015, em todo o Brasil

Wagner Belmonte e Neide Martingo

Alguns setores funcionam como verdadeiros “termômetros” da economia como um todo. O de tintas é um deles. E o Brasil está entre os cinco maiores mercados mundiais. De acordo com a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati), o mercado de tintas no Brasil vai movimentar aproximadamente US$ 3,25 bilhões no ano de 2010, o que representa aumento de 7,5% em comparação a 2009, que registrou total de R$ 3,03 bilhões, com a produção de 1,232 bilhão de litros.

 A expectativa para 2011 é simples: manter o crescimento acima da média da própria economia.

Quanto mais os fabricantes da matéria-prima faturam, melhores ficam os números da produção no País. As tintas são imprescindíveis em mercados como o imobiliário e o automotivo, entre outros.

Uma prioridade da Abrafati, agora, é acentuar a profissionalização. O presidente da associação, Dílson Ferreira, afirma que a ideia é preparar 500 mil pintores em todo o Brasil até 2015. “A orientação para inovação e desenvolvimento tecnológico é um dos pilares que sustentam a indústria de tintas”, argumenta.

PERFIL Dílson Ferreira é administrador de empresas e advogado, com pós-graduação em Análise Financeira pela University of Delaware, nos Estados Unidos. O executivo preside a Associação Brasileira dos Fabricantes de Tintas (Abrafati) desde 1999. Antes de assumir o comando da entidade, acumulou 33 anos de experiência no setor químico e de tintas e vernizes.

RICARDO XAVIER RECURSOS HUMANOS – Qual a avaliação das vendas do setor ao longo de 2010?

Dílson Ferreira – Nos primeiros seis meses deste ano, as vendas de tintas registraram aumento de 15% em relação ao mesmo período de 2009. Este resultado provocou a revisão das previsões do fechamento de 2010, que, inicialmente, apontavam para uma alta de 3,5%. O índice projetado agora é de 7,5%, possivelmente maior do que o crescimento do PIB do País. O mais importante é dizer que este resultado não é fruto de uma bolha de consumo. Trata-se de um crescimento sustentável. A expectativa é a de que o mercado de tintas no Brasil vai movimentar aproximadamente US$ 3,25 bilhões no ano, o que representa aumento de 7,5% em comparação a 2009, que registrou um total de R$ 3,03 bilhões. Essa perspectiva indica que, em cinco anos, o País poderá produzir dois bilhões de litros de tintas.

RICARDO XAVIER RH – Quais os setores que protagonizaram o crescimento?

Ferreira – As tintas imobiliárias são responsáveis pela maior parte da produção: 1,061 bilhão de litros, de um total de 1,322 bilhão previsto para o ano. As tintas industriais vêm logo depois, com 163 milhões de litros. As imobiliárias mantêm um ritmo forte de vendas desde o segundo semestre de 2009, acompanhando o cenário da construção civil.

RICARDO XAVIER RH –  Quanto foi investido para assegurar o crescimento da produção?

Ferreira – O investimento do setor, nos próximos cinco anos, deverá ser de US$ 1 bilhão. Dados da Abrafati indicam que existem hoje no Brasil cerca de 500 fabricantes de tintas. A associação reúne apenas 30 empresas, que são responsáveis por 80% do faturamento total.

RICARDO XAVIER RH –  Quais os principais problemas do setor?

Ferreira – Os gargalos do segmento seriam sanados com investimentos em infraestrutura, para melhorar as condições de portos e rodovias. É preciso viabilizar negócios com custo menor. Os gastos para transportar mercadoria não podem ser tão altos em razão das condições das estradas, por exemplo. Além disso, muito produto fica parado nos portos, em razão da falta de modernização. Outra prioridade do governo tem de ser a desoneração das importações. Os fabricantes brasileiros de tintas trazem de fora 60% das matérias-primas. O total de importações chega a US$ 100 milhões por ano. Para fabricar as tintas, são necessárias 800 matérias-primas diferentes, sendo 60% delas importadas. A idéia é pleitear que o governo acabe com este imposto, que representa até 12% de redução no preço final.

RICARDO XAVIER RH – A Abrafati desenvolve um programa de capacitação para os profissionais do setor. Quais os objetivos?

Ferreira – Os profissionais do setor – como pintores, eletricistas, assentadores de pisos e azulejos e aplicadores de drywall – vão ter a chance de se preparar. O projeto começa com os pintores. São aproximadamente 4 mil trabalhadores só na Grande São Paulo que se inscreveram e estão participando do Programa Pintor Profissional Abrafati, criado com o objetivo de capacitar, avaliar a habilitação técnica e reconhecer os profissionais de pintura. Muitos deles já foram aprovados nos testes realizados e receberam cartões de identificação que mostram a sua habilitação técnica para atuar na pintura de imóveis. Além de contribuir para evitar a ameaça do chamado “apagão da mão de obra” – que paira sobre todo o setor da construção civil – o programa de capacitação da associação tem provocado reações muito favoráveis por parte daqueles a quem é dirigido: os pintores. A valorização da profissão, o reconhecimento e a possibilidade de contar com um aval em relação à qualidade dos serviços que prestam são apontados como importantes benefícios pelos profissionais já credenciados.

RICARDO XAVIER RH –  O senhor afirmou que muitos trabalhadores foram aprovados em testes. Como eles são feitos?

Ferreira – Na primeira etapa do Programa Pintor Profissional, que está em andamento, participam apenas pintores que já exercem a profissão. Eles reciclam seus conhecimentos em materiais técnicos especialmente elaborados pela Abrafati. Depois disso, têm sua formação técnica avaliada por um teste escrito e pela verificação de serviços que já executaram.  Se aprovados, os pintores recebem uma credencial, o cartão de identificação a que me referi, e passam a fazer parte do Cadastro Nacional de Pintores de Imóveis. A credencial é utilizada por eles como um elemento de diferenciação no mercado, avalizando a qualidade da formação. Por sua vez, o cadastro, que é uma iniciativa pioneira da entidade, é disponibilizado no site do programa na internet (www.pintorprofissional.org.br) e nas revendas de tintas, facilitando a escolha, pelos consumidores, de um profissional realmente competente. Para as revendas, o cadastro significa a possibilidade de oferecer a seus clientes indicações confiáveis, como mais um serviço pós-vendas.

RICARDO XAVIER RH – Desde quando o Programa de Capacitação é desenvolvido pela Abrafati?

Ferreira – O programa foi lançado em 2009, depois de estudos e de um cuidadoso planejamento. Seu objetivo é suprir a necessidade de pintores cada vez mais qualificados, capazes de lidar com tintas mais avançadas, com características variadas. É preciso estar preparado para proporcionar melhores resultados na aplicação da tinta. Ao mesmo tempo, com o crescimento da construção civil, aumentou também a demanda pintores capacitados.

RICARDO XAVIER RH – Quantos cursos são oferecidos pelo programa e como ocorre o treinamento?

Ferreira – Atualmente, o programa está em sua primeira etapa, que tem um caráter de certificação de profissionais que já exercem a profissão. Não há aulas, mas a verificação da habilitação técnica do pintor. É importante lembrar que a participação no programa é totalmente gratuita para os pintores, oferecendo a eles a oportunidade de reciclar seus conhecimentos e valorizar-se profissionalmente, ao fazer parte de um seleto grupo que será referência de qualidade na prestação de serviços de pintura imobiliária. A segunda etapa, a ser implantada futuramente, envolverá o treinamento em larga escala dos interessados em atuar como pintores imobiliários, mesmo sem experiência anterior.  Por ser uma experiência pioneira, o programa está sendo implantado gradualmente. Começou pela Grande São Paulo e, em 2010, foi estendido a três novas regiões: o interior de São Paulo e os Estados de Pernambuco e Rio Grande do Sul. Com o tempo, chegará a todo o Brasil. No momento, os valores investidos ainda não são significativos e vêm sendo cobertos com recursos da própria Abrafati e de fabricantes de tintas que apoiam.

RICARDO XAVIER RH –  O Prêmio Abrafati-Petrobras é promovido pela associação há 24 anos. Qual a importância dele para o setor?

Ferreira – Em 2010, o Prêmio Abrafati-Petrobras de Ciência em Tintas chega à 12ª edição, mantendo o objetivo pelo qual foi criado: incentivar a pesquisa e contribuir para o desenvolvimento tecnológico da indústria de tintas no País. Trata-se do único prêmio científico ligado às tintas no Brasil. Na sua história, mais de duas dezenas de especialistas ligados às principais universidades, centros de pesquisa e empresas da cadeia de tintas foram contemplados, em função de trabalhos de alto nível que representam uma contribuição efetiva para o desenvolvimento tecnológico do setor e do Brasil. São estudos tecnicamente muito bons, que já resultaram em aprimoramentos significativos em processos, em desenvolvimento de produtos e matérias-primas, em avanços também no campo ambiental. Muitos deles dão origem a novas pesquisas ou a estudos mais aprofundados sobre o tema.

RICARDO XAVIER RH –  Quais as principais ações da Abrafati voltadas à sustentabilidade? Como garantir produtos e processos químicos ambientalmente mais limpos?

Ferreira – A indústria de tintas tem a proteção ambiental como uma das bases de sua estratégia de desenvolvimento setorial, com desenvolvimento tecnológico, capacitação profissional e competitividade. Indústria e fornecedores têm investido pesadamente em técnicas que permitem ter produtos com impacto ambiental minimizado, com a redução do uso de energia e de água, produção mais eficiente, geração de menos resíduos, prevenção da poluição, redução da emissão de compostos orgânicos voláteis, entre outros. Deve ser destacada entre essas iniciativas a implantação no Brasil do Programa Coatings Care, de atuação responsável em tintas.

RICARDO XAVIER RH – No que consiste esse programa?

Ferreira – Ele é uma iniciativa do International Paint and Printing Ink Council (IPPIC), entidade da qual a Abrafati faz parte. A entidade oferece aos fabricantes de tintas um conjunto de procedimentos e soluções integradas, já devidamente testadas, para administrar os aspectos de suas atividades relacionadas ao meio ambiente, à segurança e à saúde ocupacional.  Como o Coatings Care, o programa GHS – Sistema Global para Classificação e Rotulagem de Produtos Químicos é uma iniciativa que traz novos parâmetros para a condução ambientalmente responsável dos negócios da indústria de tintas. Com a participação da Abrafati, este é um novo sistema global para padronização da classificação de produtos químicos e de sua rotulagem. O objetivo é minimizar os riscos à saúde humana e ao meio ambiente no contato com produtos químicos, ao longo de suas etapas de produção, manuseio, transporte e utilização.

RICARDO XAVIER RH –  Há iniciativas mais pontuais, cotidianas mesmo, sobre sustentabilidade?

Ferreira – Sim, diversas iniciativas vêm sendo desenvolvidas pela associação no sentido de promover o atendimento às demandas de sustentabilidade. Uma das principais é o projeto de autorregulamentação da indústria de tintas em relação à emissão de compostos orgânicos voláteis. Outro tema que merece ser destacado são os cuidados com a destinação das embalagens de tintas após o uso. Foram desenvolvidas várias ações de conscientização e criado um projeto piloto de reciclagem das embalagens. A Abrafati também procura estimular fortemente a pesquisa científica – e sua aplicação prática – relacionada aos aspectos ambientais. Além de promover, anualmente, o Seminário de Assuntos Ambientais e de Segurança em Indústrias de Tintas, nós conferimos espaço destacado ao tema na programação do Congresso Internacional de Tintas, considerado um dos mais importantes do mundo.

RICARDO XAVIER RH –  E quais os principais avanços apurados?

Ferreira – Os principais avanços tecnológicos relacionados às tintas imobiliárias estão ligados a dois aspectos. O primeiro é a produção de tintas à base de água – que elimina o uso de solventes orgânicos, trazendo ganhos ambientais. O segundo são os sistemas tintométricos – que permitem escolher e produzir na hora, na loja, uma imensa gama de cores, com a possibilidade de reproduzir de maneira perfeita essa cor posteriormente.  Outra tendência atual são tintas com funcionalidades, ou seja, tintas que incorporam o que chamamos de funções adicionais. Além disso, como inovações recentes em termos de produtos, existem as tintas com fragrância, as tintas magnetizadas, os diversos tipos de texturas e o desenvolvimento de produtos para ambientes e utilizações específicas, como as tintas para telhas, azulejos, pisos, gesso, tetos, decks de piscinas, hospitais.

RICARDO XAVIER RH – E as tendências?

Ferreira – Podemos destacar a preocupação com a sustentabilidade, o que significa que as tintas serão cada vez mais ambientalmente amigáveis. As chamadas tintas inteligentes (smart coatings), que reagem a diferentes situações e estímulos, são outra tendência, assim como o uso de nanotecnologia. É importante destacar que o consumidor está cada vez mais exigente, o que leva à constante necessidade de inovação por parte da indústria. No aspecto ambiental, merece destaque a tendência de crescimento da importância dos produtos e processos químicos mais seguros e ambientalmente corretos na indústria de tintas. O conceito de “produto verde” se ampliou, incluindo desde a escolha de matérias-primas à formulação, produção, expedição até chegar ao destino da embalagem vazia.

RICARDO XAVIER RH –  Qual região do País apresenta maior potencial de crescimento? Por quê?

Ferreira – Todas as regiões apresentam bom potencial de crescimento, mas, no Nordeste, o ritmo de vendas tem sido mais forte do que no restante do País, em razão do aumento do poder aquisitivo e do acesso da população ao crédito, somados à demanda reprimida existente. Está havendo um boom na construção civil, com a ampliação dos financiamentos imobiliários e o avanço de programas de habitação de interesse social. Isso representa um importante impulso para as vendas de tintas imobiliárias. Mas o maior volume vem das compras feitas diretamente por consumidores, para autoconstrução, reformas e repintura de imóveis. Essa demanda está diretamente relacionada à melhoria do nível de renda e de emprego, à oferta de crédito e ao nível de confiança na economia. A expansão da infraestrutura em geral é outro fator que contribui para o crescimento regional. Há inúmeros projetos em andamento que demandam tintas. Graças a isso, a nossa estimativa para a região Nordeste este ano é de um crescimento de pelo menos 10% nas vendas de tintas imobiliárias, em comparação a 2009. Para atender à demanda crescente, fabricantes de tintas vêm investindo no Nordeste. Empresas que já contam com operações locais estão expandindo sua atuação e, ao mesmo tempo, novas indústrias são atraídas pelo grande potencial existente.



   

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