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Ozires Silva criou a Embraer e hoje é Reitor da Universidade de Santo Amaro. Ele fala do livro que está finalizando sobre o sucesso da empresa que fabrica aviões e diz que a educação sempre foi "a base de tudo".

14/12/2007


GESTãO


Ozires: 'Está no meu DNA a educação como elemento de transformação'



Criador da Embraer e agora reitor da Universidade de Santo Amaro finaliza um livro de 250 páginas sobre o sucesso da empresa que fabrica aviões e diz que a educação sempre foi "a base de tudo"


Por Wagner Belmonte*


São mais de 38 anos de carreira e um currículo invejável. O engenheiro Ozires Silva é uma referência quando o assunto é fabricar aviões. Criador da Embraer, ex-presidente da Petrobrás e da Varig, ele afirma que sempre esteve envolvido no processo educacional e insiste que a capacidade de transformação pela educação é o elemento fundamental que leva ao desenvolvimento de uma nação. "O sistema educacional precisa acompanhar as aspirações da sociedade como um todo", afirma Ozires Silva.


O engenheiro é atualmente reitor da Universidade de Santo Amaro e, a convite de uma editora, está mergulhado numa sadia nostalgia para contar a história da Embraer, que tem relação estreita com a dele. Ele está debruçado sobre o projeto de um livro de 250 páginas que terá como título "A Vitória da Educação". O nome da obra preconiza que o sonho de fazer aviões no Brasil esteve calcado no desenvolvimento de pessoas que se especializaram. "O processo de construção de aviões brasileiros, efetivamente, partiu do ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica, em São José dos Campos)", explica. "Sem essa instituição e sem a Aeronáutica, nada disso teria acontecido", enfatiza.


Com uma análise paradoxalmente minuciosa e sensível da realidade educacional, Ozires Silva tenta interpretar a dicotomia (ou abismo?) existente na qualidade do ensino público e privado do Brasil e como as faculdades formam profissionais, se é que formam, já que nove entre 10 executivos dizem categoricamente que a formação ocorre de fato in company. Segundo ele, "não se deve colocar o processo de formação de Recursos Humanos preso a regras, uma vez que a legislação educacional é obsoleta, rígida demais e amarra as estruturas". O reitor, para argumentar, cita o escritor do livro "O Monge e O Executivo", James Hunter, que, segundo ele, ficou pasmo ao constatar que "temos uma legislação rígida, inflexivelmente extensa, portanto, oposta à dos Estados Unidos".


Reféns da tecnologia internacional, os estudantes sofrem as conseqüências da falta de um "planejamento de nação" que, além de estagnar o processo de desenvolvimento do País, engessa a capacitação e a especialização de profissionais gabaritados para escrever o futuro da sociedade (e da economia) brasileira.


Ozires Silva aponta soluções. Entre elas, maior autonomia e a entrega do regimento acadêmico universitário aos Estados e aos Municípios, de modo que eles possam planejar uma grade curricular melhor, que esteja de acordo com os anseios e as necessidades sócio-culturais de cada local. "É preciso customizar mais e massificar menos a educação", proclama.


Com uma vasta experiência em gestão pública e privada, na área empresarial, social e educacional, o reitor da Unisa relembra uma frase que leu num relatório publicado pelo Parlamento Europeu e que, segundo ele, é "letal" e o fez refletir cotidianamente: "Ao contrário do que os governos latinos estão dizendo aos seus povos, a América Latina se tornou um continente irrelevante". Cabe a cada instituição - em especial àquelas que atuam num segmento que deve ser "menos negócio", como a educação - mostrar o quanto os europeus se equivocaram na análise. Segundo ele, os efeitos do tecnocratas da educação são bastante conhecidos dos brasileiros.


Manager - O que trouxe o senhor para a área da educação?


Ozires Silva - De uma forma ou de outra, sempre participei do processo da educação. Eu recebi até mesmo um convite de uma editora para escrever sobre a história da Embraer e o título do livro será "A Vitória da Educação", porque o processo de construção de aviões brasileiros, efetivamente, partiu do ITA. Sem essa instituição e sem a Aeronáutica, nada disso teria acontecido. Desde o começo do ITA, sempre me preocupei com a formação dos engenheiros. Não é difícil imaginar que, em São José dos Campos, não havia técnicos especializados. Tivemos que criar e desenvolver escolas para todo um processo de treinamento. Durante minha vida toda, trabalhei para o processo de fabricação dos nossos aviões e também no educacional, de modo que está no meu DNA a educação como elemento de transformação. Acredito claramente - e enfatizo sempre que posso - que a capacidade imensa de transformação da educação é o elemento fundamental que pode assegurar o desenvolvimento econômico e social de uma nação.


Manager - A Embraer foi criada na década de 60. Quando se criou uma estrutura complexa como aquela, não era fundamental um suporte para que ela funcionasse?


Ozires Silva - Não. Temos que começar pela idéia do ITA. Isso ocorreu no ano de 1945, quando um grupo de oficiais da Aeronáutica, liderado pelo brigadeiro Montenegro Filho, disse que nós somente iríamos fabricar aviões se antes "fabricássemos" engenheiros e técnicos especializados.


Manager - O que é "fabricar" engenheiros e técnicos?


Ozires Silva - Educá-los, treiná-los, capacitá-los. A Aeronáutica começou criando o ITA. Quando o ITA foi criado, começaram a se formar engenheiros especializados e eles procuravam trabalhar na Aeronáutica. O brigadeiro, então, dizia: "Eles serão sementes. Se o terreno for fértil, eles vão criar empreendimentos e vão crescer e se tornar árvores". A concepção inicial da fabricação de aviões no Brasil esteve calcada no processo de criação de pessoas especializadas por intermédio da educação. E por quê? Porque a educação está e deve estar na base de tudo. Por isso, propus à editora que o título do livro sobre a história da criação da Embraer seja "A vitória da educação".


Manager - Esse é um projeto sobre o qual o senhor já está debruçado?


Ozires Silva - Sim, pretendia lançá-lo neste ano, mas retardou muito por várias razões, uma delas é porque há pessoas-chave que eu preciso entrevistar. Estamos programando o lançamento do livro para a primeira quinzena de março de 2008, com 250 páginas.


Manager - O livro vai falar da Embraer até a privatização dela?


Ozires Silva - Até a fase pós-privatização.


Manager - O senhor avalia que a privatização foi um sucesso?


Ozires Silva - Claro. Foi um grande sucesso.


Manager - A Embraer, por causa do ITA, destoa da realidade educacional brasileira, pelo menos atualmente. 85% dos presidentes de empresa e diretores de RH entrevistados nos últimos oito anos pela Manager afirmam que as faculdades não cumprem os seus papéis mais precípuos. Qual a sua avaliação sobre essa queixa?


Ozires Silva - O sistema educacional precisa acompanhar as aspirações da sociedade de um modo geral. É preciso massificar menos e customizar mais a educação. Não se pode atrelar o processo de formação de Recursos Humanos a regras e a uma legislação, o que é muito típico do Brasil. As leis são rígidas. Elas fixam e amarram as estruturas educacionais. É preciso dar autonomia aos Estados e aos Municípios, e os cursos devem levar em conta também as demandas e necessidades regionais. James Hunter, autor do livro O Monge e o Executivo, falou que ficou pasmo em constatar que nós temos uma legislação rígida, muito inflexível e extensa, quando nos Estados Unidos ocorre o inverso.


Manager - Na prática, o que significa isso?


Ozires Silva - Significa que você tem que adaptar a legislação aos fatos e às necessidades e anseios da sociedade. Afinal, a organização social não é um negócio engessado, definido. Ela muda com uma velocidade relativamente grande. O peso e a interferência do Ministério da Educação sobre as universidades são brutais. Alguns legisladores acham que podem colocar o sistema educacional em uma armadura matemática, transformar as horas de aulas em somas algébricas, equações. Se a universidade hoje tem dificuldades, é necessário ver a dificuldade que ela tem para estudar e resolver a situação. Com uma legislação educacional ultrapassada, pesada, amarrada, não há essa possibilidade.


Manager - Quais os gargalos dessa legislação? E quais os efeitos que eles provocam?


Ozires Silva - A pluralidade cultural não é levada em conta, uma vez que está tudo amarrado em um negócio que vem de Brasília como se fosse um oráculo e que tem de ser cumprido como um dogma. O Ministério da Educação, por exemplo, exige que, para se criar um curso de Gestão em Administração de Empresas, ou coisas dessa natureza, a universidade tenha que ter tantos mestres, tantos PHDs, tantas horas de aula - e as coisas não são por aí. Quando coloco essas discussões sobre o Ministério da Educação, quero dizer que nós temos uma universidade, a Unisa (antiga OSEC), que tem sucesso há 40 anos e não precisamos da inspeção de ninguém para ver se estamos fazendo a coisa certa ou não. Nós temos uma reputação; temos responsabilidade, tradição de ensino e qualidade. Acho que não tem outro país no mundo que tenha regras tão rígidas para a educação como aqui. O Estado brasileiro está amarrado em legislações rígidas, como disse James Hunter. Por exemplo, em janeiro deste ano o ministro da Educação disse que nós não podíamos criar mais nenhum pólo de EAD enquanto ele não certificasse os já existentes. O que é certificar? Qual a competência que eles têm para fazer isso e que nós não temos? Temos 900 professores e, como a USP, a FGV, a ESPM, um nome a preservar. Por que as pessoas querem entrar numa ESPM? Porque ela é uma instituição diferenciada. E por que se precisa de um certificado do governo para isso? O problema é que temos que atender regras governamentais que não acompanham o desenvolvimento da sociedade. Há burocratização ou tecnocracia. Vamos supor: nós fabricamos, aqui no Brasil, tudo sob licença, mas não projetamos, não criamos produtos. Ninguém precisa se preocupar com o processo de concepção porque o Japão, por exemplo, envia manuais de como fazer o produto aqui no Brasil. Ou seja: a gente deveria se preocupar com o processo de criação, de desenvolvimento, e não apenas em executar o que já foi desenvolvido por alguém. Veja o que aconteceu com a indústria automotiva no Brasil. O carro brasileiro não era competitivo, era? E agora? Veja o Corolla, que a Toyota produz aqui no Brasil. Qual a diferença desse carro para um que é vendido lá fora? Nenhuma. O carro brasileiro era perecível. Hoje, com a globalização, você compra um Toyota, um Honda e esses carros não quebram, não dão manutenção. Isso fez com que a indústria buscasse desenvolver produtos globais e melhorou para todo mundo. A qualidade do automóvel nacional é incomparavelmente superior àquilo que se via há 20 anos.


Manager - Na linha do pioneirismo da própria Embraer?


Ozires Silva - Sim, a Embraer tem um modelo muito bem-sucedido. Ela é dona do seu projeto e produto. Se os japoneses quiserem fazer um avião no modelo da Embraer, eles precisam pedir licença. É o processo inverso, e ele é tão bom que todo mundo faz. A Sony não foi buscar a tecnologia dela nos Estados Unidos, ela a desenvolveu no Japão. O processo criativo tem um extraordinário valor no mercado hoje e é filho direto da educação.


Manager - Viramos reféns da tecnologia internacional?


Ozires Silva - Isso vem desde a época do Juscelino (Kubitschek, que presidiu o País de 1956 a 1961), com o seu programa de desenvolvimento "50 anos em 5". Ele concebeu alguns modelos, como a industrialização da metal-mecânica, complementos agrícolas, mas absolutamente distante das bases universitárias. Ou seja, tudo vinha de fora. Por que o Brasil com 500 anos não tem uma dimensão semelhante à dos Estados Unidos? Até meados do século XIX, o Brasil era mais rico do que os Estados Unidos e perdemos isso porque não descobrimos a revolução industrial. Nós continuamos fabricando produtos agrícolas, enquanto os americanos passaram a liderar o setor industrial e, hoje, lideram a indústria de serviços da qual nós também ficamos para trás.


Manager - Para quem gerencia uma empresa hoje, seja ela nacional ou não, quais as recomendações que o senhor dá?


Ozires Silva - A tecnologia de informação cresce rapidamente. Nesse cenário, preciso saber o que fazer com o homem de hoje para ele ser alguém amanhã. A opinião pública considera que nós temos que trabalhar na "fabricação" do cidadão do futuro e isso se dá por meio da educação. A sociedade organizada oferece essas condições. O ponto básico é a educação fundamental de química, física, enfim, prepará-lo com um ambiente de informação extremamente amplo. A escola tem que habilitar o indivíduo para que ele tenha todos os elementos intrínsecos para escolher a habilidade que ele quer para o futuro.


Manager - Qual a sua opinião sobre a progressão continuada, ou seja, sobre o banimento das reprovações no ensino básico e médio?


Ozires Silva - Acho que temos que pensar em coisas estruturais. A educação brasileira está subordinada ao governo federal, quando deveria estar subordinada aos Estados e aos Municípios, o que seria muito mais eficaz, porque o cidadão mora no Estado e no Município, e não na União. Nós devemos respeitar as diversidades culturais e a diversificação da demanda estudantil. Minha opinião é que a legislação educacional, como um todo, é atrasada. Nos Estados Unidos, o Ministério da Educação só cuida das partes macro e mundiais de relacionamento do país. O problema de ensino da Pensilvânia é completamente diferente do ensino na Califórnia. Aqui no Brasil o MEC quer inspecionar e padronizar tudo. As necessidades locais precisam ser olhadas. É preciso valorizar o combate das dificuldades mais salientes regionalmente. Se você olhar as grandes empresas do mundo, quase todas têm uma universidade corporativa. Essas universidades reciclam, formam e treinam os funcionários e vão além disso. É o que ocorre na Votorantim e na CSN, por exemplo, não com propósitos acadêmicos, mas para que o profissional esteja em sintonia com o que é tendência. A empresa passa a complementar o trabalho das universidades.


Manager - Qual seria o primeiro passo para que o ensino superior fosse monitorado pelos Estados e Municípios?


Ozires Silva - Vontade política por meio de um grande líder com uma visão clara do futuro como o Juscelino. Ele escolheu um caminho que não foi o melhor, mas ele conseguiu e iniciou o processo de desenvolvimento do Brasil.


Manager - Qual a sua opinião sobre a CLT?


Ozires Silva - Mais uma legislação atrasada que vai ao encontro da minha definição. Com relação às empresas, em outros locais, elas investem em educação estimuladas pela vontade política do país e pela baixa tributação. Nós somos o único país do mundo em que se paga imposto na educação. A CLT é uma legislação inspirada no fascismo. Ela perdura há mais de 60 anos. O País não mudou nesse período? É justo que a relação seja a mesma? Ainda não temos projeto de nação e não temos planejamento de futuro. O modelo brasileiro não funciona: o governo manda e a gente tem que cumprir.


Manager - Esse é um modelo que não tem correção?


Ozires Silva - Eu diria que mudará se tivermos um líder com uma visão clara de investimento no futuro por meio da educação. Aliás, foi publicado no Parlamento Europeu um relatório que tem uma frase letal para nós que diz o seguinte: "Ao contrário do que os governos latinos estão dizendo para os seus povos, a América Latina se tornou um continente irrelevante". Precisamos mudar essa história.




   

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