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28/01/2015

A morte da ascensorista

João Xavier



Fui a um grande e tradicional prédio do centro da cidade que há muito não visitava - coisa de uns 15 anos, aproximadamente. Fiquei impressionado com a modernização que fizeram. Trocaram piso, colocaram pedras nas paredes, muitos vidros. Mas o que mais me chamou a atenção foi a modernização dos elevadores.

Agora funciona assim: ao passar seu cartão de acesso pela catraca, um pequeno visor indica qual o elevador você deve pegar – não há botões para chamá-lo. Você entra no mesmo (sim, digo “o mesmo” pois a placa avisa: antes de entrar verifique se “o mesmo” encontra-se neste andar) e não precisa apertar pelo andar, ele segue diretamente para o piso que fora programado.

Fiquei maravilhado com a inovação. Como é linda a tecnologia! Mas aí lembrei de um fato que ocorrera quando das minhas visitas anteriores àquele prédio. Certa vez, saindo do elevador, fui tirar o cartão de acesso do bolso para devolvê-lo à recepcionista mas veio junto com ele uma nota de R$ 50, que caiu no chão. Naquele momento a simpática ascensorista gritou, muito educadamente, alertando para o fato. Virei-me, olhei para a nota no chão, olhei sorrindo para ela, peguei a nota e voltei para agradecer. Criamos uma cordial relação: ela sempre simpática me desejava bom dia e alegrava meu dia com seu sorriso e seus comentários a respeito do clima.

Naquele instante surgiu-me a pergunta: por onde andam as ascensoristas? E mais, o que andam fazendo depois de terem perdido o emprego para esses modernos sistemas condutores de passageiros?

Acho que elas foram extintas, afinal nunca mais as vi pelos elevadores por onde andei. Teriam sido assassinadas? Morreram de fome, vitimadas pela moderna tecnologia? E de quem é a culpa, afinal? Daqueles que criam e promovem máquinas, computadores com seus sistemas e aplicativos, ou seriam elas mesmas as culpadas por não perceberem a ameaça, para reagirem a contanto? E se nada fizeram, poderíamos considerar isso um suicídio? Agora já não mais importa, Inês é morta.

Mas quantos outros como elas morreram? Lanterninhas, datilógrafos, telefonistas, cocheiros, acendedores de lampião? Secretárias, abram seus olhos; pilotos, fiquem atentos – já temos aeronaves não tripuladas. Recentemente, estive em uma fábrica de uma grande multinacional do setor de agroquímicos onde apenas 5 profissionais operavam toda uma enorme fábrica.

O sociólogo Italiano Domenico De Masi alerta: a tecnologia já substituiu o trabalho braçal e operacional, que agora é feito pelas máquinas. A computação vai substituir o trabalho executivo. Nos resta apenas o trabalho criativo – esse, pelo conhecimento que até então temos, ainda não sofre ameaça de substituição.

Se tratarmos a morte de maneira religiosa, espiritualista ou mesmo mitológica, podemos conceber que a ascensorista morreu para renascer em outro plano, ou seja, ela se transformou. Fiquemos então atentos às transformações tecnológicas à nossa volta, sendo agentes ativos da nossa próxima mutação.

Artigo publicado no Olhar Digital em 19 de janeiro de 2015.


   

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