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18/12/2007

Ação inútil, depois que 'Inês é morta'

Ricardo Xavier



“Agora é tarde, Inês é morta”, expressão portuguesa que surgiu em decorrência da história de amor trágica entre Inês de Castro e o príncipe, depois rei, Pedro I (não confundir com o imperador brasileiro), chamado por uns de O Justiceiro e, por outros, de O Cruel, ou O Vingativo. Inês, amante do futuro rei, fora assassinada por ordem do Conselho Real, em 1355, porque se temia que sua ligação com o príncipe o tornasse excessivamente amistoso com os parentes dela, de Castela, colocando o reino em risco. O assassinato de Inês, em vez de trazer os efeitos desejados, afastou o príncipe ainda mais do pai, o rei Afonso IV, contra o qual se revoltou duas vezes, em conflitos depois apaziguados. Após a morte do pai, aclamado rei, Dom Pedro I empenhou-se na vingança de Inês, matando cruelmente dois de seus assassinos. Coroou a amada morta Inês como rainha.

Trágica história, eternizada em versos de Camões, e na expressão popular do dia-a-dia dos países de língua portuguesa, tem muito a ensinar. Neste breve artigo, interessa o que podemos tirar da história em termos de orientação para o trabalho e a carreira.

Vários ângulos das decisões inadequadas

A expressão “Agora é tarde, Inês é morta” quer dizer coisas irremediáveis, situações em que nada mais há a fazer, ou ações inúteis que são baseadas em fatos já consumados. A ordem de assassinar Inês, os atos de vingança de D. Pedro e a coroação da rainha morta apresentam dois ângulos básicos do erro decisório. O primeiro é fazer a coisa errada; o segundo é errar no timing, na hora de fazer algo.

O rei e, principalmente, o Conselho Real erraram ao mandar matar Inês. Desconsideraram questões básicas, como a reação do príncipe e os efeitos colaterais negativos da decisão. Decidiram pelo bem do reino e do príncipe, sem consultar o principal interessado, o próprio D. Pedro, o futuro rei! É difícil avaliar e controlar o sentimento de vingança, mas, a meu ver, o príncipe, por sua vez, errou ao buscar a vingança contra aqueles que mataram por ordem real, o que o fez passar para a história também como O Cruel, quando poderia ter passado apenas como o grande administrador e estadista que foi, do qual se dizia que “dez anos nunca houve em Portugal como estes em que reinara El Rei Dom Pedro”.

Por outro lado, deixando-se de lado o aspecto simbólico, pode-se dizer que a hora de coroar a rainha foi imprópria, porque “agora é tarde, Inês é morta”.

Aplicando ao dia-a-dia da carreira

Tomar decisões precipitadas e, principalmente, erradas causa tumulto, efeitos colaterais, revoltas, inimizades eternas (D. Pedro jamais perdoou o pai). Antes de decidir, principalmente em casos em que não há retorno, é fundamental pensar bem. Isso vale, por exemplo, para um chefe que decide coisas que afetarão a carreira de subordinados. Vale também para um executivo que não gostou de uma medida adotada pela empresa em que trabalha e reagiu de forma emocional e precipitada.

Tomar decisões irreversíveis é conduta de alto risco. Só se tomam decisões irreversíveis em último caso. Por exemplo, ao deixar a empresa na qual trabalhou 10 anos o profissional resolve “chutar o pau da barraca” e fecha definitivamente as portas atrás de si. Além de perder um potencial apoio institucional para coisas futuras, deixou rastros de má imagem entre os executivos da empresa e do mercado – que poderão vir a interagir com ele em outras circunstâncias e lugares amanhã.

Fazer algo depois que Inês é morta não trará resultados. Isso vale para todos os que ficam esperando demais para decidir-se por uma mudança e tentam fazê-la quando o tempo certo já passou. Depois que o cliente potencial já se decidiu por um concorrente, por exemplo, de nada mais adianta apresentar uma proposta excelente. O fato negativo está consumado.

Uma reflexão final, em palavras de Jim Bishop: “Nada está mais distante que o minuto que passou”. O importante é manter a atenção para fazer a coisa certa, na hora certa. Sabedoria é evitar decisões que levem a males consumados e irreversíveis e decisões tardias, que só trazem recordações do bem que poderia ter existido – e a frustração resultante.


Ricardo Xavier, administrador de empresas, é Presidente do conselho administrativo da Manager.
E-mail: ricardoxavier@manager-rh.com.br




   

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