Página principal / entrevistas

O CEO da Bunge Brasil, Pedro Parente, está no cargo desde janeiro passado. Até dezembro de 2009, ele era vice-presidente do Grupo RBS, empresa brasileira de comunicação que edita o jornal Zero Hora (RS) e detém a concessão da Rádio Gaúcha e da TV RBS, afiliada da Rede Globo. Parente foi ministro-chefe da Casa Civil, ministro do Planejamento e secretário executivo do Ministério da Fazenda durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Atuou ainda como consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou no Banco Central e no Banco do Brasil.  Parente ocupou o cargo de Presidente dos Conselhos de Administração da Petrobras e do Banco do Brasil. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília, ele é membro do Centro de Estudos Latino-Americanos da George Washington University. 

18/10/2010


INDÚSTRIA


Brasil: infraestrutura impõe perda de US$ 5 bi ao ano ao agronegócio brasileiro



Pedro Parente aponta a burocracia e o câmbio como entraves para investimentos.

Por Wagner Belmonte e Neide Martingo

O CEO da Bunge Brasil, Pedro Parente, é otimista: “As portas do mundo estão escancaradas para o Brasil”, afirma com convicção. Para aproveitar o bom momento, é preciso que projetos do governo caminhem, em especial num dos grandes gaps da economia brasileira: a infraestrutura. “As deficiências em nossos portos e no sistema rodoviário provocam perdas de até US$ 5 bilhões ao agronegócio brasileiro”, afirma. “Defendo a expansão dos modais ferroviário e hidroviário para o transporte de produtos, a exportação de grãos e a importação de fertilizantes”, complementa.

Parente cita também a perda de competitividade das empresas, gerada pelo câmbio, e a burocracia – inclusive na área ambiental. “Os excessos podem afugentar investimentos estrangeiros”, adverte. Ele lembra, porém, que muitas ações não dependem de mudança ou criação de leis, mas de gestão.

A Bunge foi inaugurada em Amsterdã, na Holanda, em 1808, com o objetivo de comercializar produtos importados e grãos das colônias holandesas. A companhia só chegou ao Brasil quase um século depois, em 1905, e hoje é considerada uma das principais empresas do agronegócio e de alimentos no País. A Bunge, entre outras atividades, processa soja e trigo, produz fertilizantes, fabrica produtos alimentícios e presta serviços portuários. A companhia é uma das maiores exportadoras do Brasil (a primeira em agronegócio). Desde 2006, atua também no segmento de açúcar e bioenergia.

A empresa está em 16 Estados de todas as regiões e possui cerca de 17 mil colaboradores que trabalham em 150 unidades, entre indústrias, centros de distribuição, silos e instalações portuárias. O faturamento bruto da companhia em 2009 chegou a R$ 27,2 bilhões. As marcas mais conhecidas da Bunge são Serrana, Manah, IAP (fertilizantes), Ouro Verde, Salada, Soya, Cyclus, Delícia, Primor e Bunge Pró.

PERFIL – O CEO da Bunge Brasil, Pedro Parente, está no cargo desde janeiro passado. Até dezembro de 2009, ele era vice-presidente do Grupo RBS, empresa brasileira de comunicação que edita o jornal Zero Hora (RS) e detém a concessão da Rádio Gaúcha e da TV RBS, afiliada da Rede Globo. Parente foi ministro-chefe da Casa Civil, ministro do Planejamento e secretário executivo do Ministério da Fazenda durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Atuou ainda como consultor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e trabalhou no Banco Central e no Banco do Brasil.  Parente ocupou o cargo de Presidente dos Conselhos de Administração da Petrobras e do Banco do Brasil. Formado em Engenharia Elétrica pela Universidade de Brasília, ele é membro do Centro de Estudos Latino-Americanos da George Washington University. 

RICARDO XAVIER RECURSOS HUMANOS O que o Brasil precisa fazer para se diferenciar de outros países no agronegócio?

PEDRO PARENTE O Brasil está entre os quatro maiores produtores do mundo. Há três fatores que podem fazer com que o Brasil se diferencie: clima favorável, oferta de água e disponibilidade de terras ‘agriculturáveis’. Neste sentido, estamos melhores do que as outras nações. A realidade é de enorme progresso no País. Mas a prioridade deve ser eliminar os entraves.

RICARDO XAVIER RH – Há um caminho para que o País se consolide como uma potência agrícola?

Parente A nossa grande vantagem é que não é necessário trabalhar sob um único aspecto, com base em apenas uma diretriz, ao contrário do que ocorre em outros países, que são “mono exportadores”. Podemos citar, por exemplo, o Chile, que tem dependência muito grande de cobre, embora esteja desenvolvendo muito a fruticultura. O Brasil tem a oportunidade de ter uma pauta de exportação diversificada. Ou seja, se olharmos a parte de alimentos, existe um enorme potencial de crescimento. O mundo está escancarado para o Brasil. Há entraves, porém, que precisam ser solucionados. O bom é que muitos desses problemas não demandam mudanças constitucionais. Claro que a questão tributária a requer. Mas outros impasses, como reduzir entraves burocráticos, trabalhar de maneira mais eficiente o tema “meio ambiente”, são questões de gestão – e não constitucionais. Sendo assim, é apetitoso para qualquer governo pegar essas questões e transformá-las em agenda, em temas que devem ser priorizados. Tudo isso pode gerar um resultado extraordinário, e não será preciso enfrentar um desgaste político enorme para aprovar emendas constitucionais.

RICARDO XAVIER RH – Como devem ficar as exportações de alimentos neste ano?

Parente Há uma questão bastante preocupante: a perda de competitividade provocada pela taxa de câmbio. Sou a favor da atual política de câmbio flutuante. Mas nós temos um problema: receitas em dólar diante de custos em reais. A taxa de câmbio está estabilizada há aproximadamente 10 anos. E as despesas têm aumentado. A Bunge, por ser empresa exportadora, acumula muito crédito de PIS e Cofins. Vamos continuar sendo uma empresa exportadora, mas precisamos, eventualmente, numa visão estratégica, aumentar o peso de nossas receitas internas. É um ativo que influencia no desempenho, na estrutura da empresa. Um exemplo está no mecanismo que o governo mencionou, de restituir 50% do PIS/Confins para exportadores. Até hoje não existe a regulamentação. Há um fator que é a perda de competitividade no câmbio. Não é o caso de mexer na política cambial. Mas é preciso fazer outras coisas. É preciso que o governo seja parceiro do setor privado, no interesse público, resolvendo os entraves.

RICARDO XAVIER RH –  O que pode inviabilizar investimentos no País?

Parente A Bunge é uma empresa comprometida com o meio ambiente, mas, sem dúvida, é preciso reconhecer que existem excessos nesta área. E eles trabalham contra o interesse nacional, contra o interesse público deste País. Você leva um prazo grande para obter uma aprovação ambiental e, depois deste prazo, isto é ainda questionado e derrubado, o que atrasa ainda mais os projetos. Para que o investidor aplique, no longo prazo, uma quantidade tão grande de recursos, como é necessário na infraestrutura, ele precisa ter clareza e certeza de que as condições estão adequadas. Se ele aplicar recursos agora, imaginando que o retorno virá em três anos, prazo que passa para cinco, por exemplo, isso muda a rentabilidade do projeto e, provavelmente, pode inviabilizá-lo. Outro ponto importante: a previsão é de que o PIB brasileiro, este ano, cresça 7,5%. O País não está preparado para crescer mais do que isso – de forma sustentável – em razão dos problemas de infraestrutura. O nível de investimentos atual é insuficiente para um crescimento desta natureza. 

RICARDO XAVIER RH – O que mais atrapalha o setor?

 Parente – As deficiências de nossos portos e do sistema rodoviário provocam perdas de US$ 5 bilhões ao agronegócio. Defendo a expansão dos modais ferroviário e hidroviário para transporte de produtos, exportação de grãos e importação de fertilizantes. Temos de associar essas duas coisas: as perdas na logística ao custo da ineficiência portuária.  



   

Seu nome:

Seu e-mail:

Nome destinatário:

E-mail destinatário:

Mensagem:




Todos os direitos reservados à Ricardo Xavier Recursos Humanos®
A reprodução, parcial ou total, do conteúdo deste site é permitida, bastando mencionar a fonte.