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Maílson da Nóbrega fez carreira no Banco do Brasil e no setor público. Foi ministro da Fazenda de 1988 a 1990, época em que se tornou membro do board do Banco Mundial (BM), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Nóbrega chefiou a delegação brasileira na negociação de acordo bilateral entre Brasil e Japão, participou do Grupo de Trabalho das Nações Unidas que priorizava o Código de Conduta para empresas transnacionais. Atualmente, o economista é sócio da Tendências Consultoria Integrada.

13/10/2010


ANÁLISE


Brasil depende de reformas para manter crescimento



O ex-ministro Mailson da Nóbrega é categórico: dificilmente o próximo presidente vai priorizar as reformas tributária, da previdência e trabalhista

Por Wagner Belmonte e Neide Martingo

A economia brasileira foi mesmo uma das menos afetadas pela crise financeira internacional, em razão, principalmente, de avanços estruturais aferidos desde a estabilização da moeda e o fim da inflação. Para o ex-ministro da Fazenda Maílson da Nóbrega, isso não assegura um “passaporte para a felicidade”. Sem as reformas estruturais, ele prevê que haverá uma desaceleração do ritmo de crescimento. “Todos sabemos o que é preciso fazer; a agenda é conhecida. O problema é como fazer”, argumenta. “A tendência no próximo governo é de continuidade da política econômica. Serão mais quatro anos sem reformas no Brasil. Isso vai, de alguma forma, reduzir o ritmo de crescimento”, adverte.

Perfil – Maílson da Nóbrega fez carreira no Banco do Brasil e no setor público. Foi ministro da Fazenda de 1988 a 1990, época em que se tornou membro do board do Banco Mundial (BM), do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID). Nóbrega chefiou a delegação brasileira na negociação de acordo bilateral entre Brasil e Japão, participou do Grupo de Trabalho das Nações Unidas que priorizava o Código de Conduta para empresas transnacionais. Atualmente, o economista é sócio da Tendências Consultoria Integrada.

RICARDO XAVIER RECURSOS HUMANOS – Quais os maiores desafios do próximo governo na condução da economia?

Maílson da Nóbrega – O principal desafio do próximo governo é fazer um ajuste fiscal. Sem uma redução substancial nos gastos correntes, sem a geração de superávit primário efetivo – maior do que o atual –, vamos ficar na mesma situação de agora: taxa de juros alta, câmbio valorizado e infraestrutura ruim. A prioridade é a reestruturação do gasto, de modo a liberar espaço para investimentos. Há também a questão tributária. O sistema tributário continua piorando muito e não sou otimista a ponto de acreditar na capacidade do próximo governo de promover uma reforma tributária. É um processo muito mais complexo do que se imagina. Não dá para reduzir a carga tributária, já que ela responde por um nível de gastos absolutamente incompatível com o estágio atual da economia brasileira. O País gasta 70% com pessoal e aposentadorias. Se agregarmos educação, saúde, encargos financeiros da dívida, são gastos mais de 90%.

RICARDO XAVIER RH – Há espaço pelo menos para redução dos juros?

Nóbrega – Sobre a taxa de juros, é questão de tempo. Se o Brasil não fizer as reformas estruturais, se não consolidar sua situação macroeconômica, melhorando também a percepção de risco, a taxa de juros continuará a ser uma das mais elevadas do mundo.

RICARDO XAVIER RH –  O real está valorizado. Muitos empresários reclamam que a depreciação do dólar mina a capacidade de exportar e a possibilidade de atingir novos mercados externos...

Nóbrega - O governo tem pouco a fazer na questão do câmbio. A valorização do real é resultado de uma situação mundial, particularmente da desvalorização do dólar. A medida recente que o governo adotou vai ter pouco impacto. A cotação do dólar mostra isso. Também não me sinto otimista em relação a temas prioritários, como a reforma tributária. Isso independe da vitória de Dilma (Rousseff) ou de (José) Serra. É pouco eficaz a tentativa do governo de frear a entrada de capital estrangeiro no País, elevando o imposto sobre investimento estrangeiro em renda fixa de 2% para 4%. É uma decisão compreensível, já que existe um processo excessivo de valorização do real. Mas ela atinge apenas uma fatia dos fluxos. Há também um grupo de pessoas que já encontrou uma maneira de contornar esse tipo de restrição. O governo, porém, afasta a possibilidade, refuta que digam que não está fazendo nada. A força dos elementos que provocam a apreciação do real é tão intensa que o governo não tem instrumentos para enfrentá-la, infelizmente. A valorização excessiva da moeda brasileira traz efeitos negativos para a economia.    




Foto: Divulgação

Mailson: infraestrutura e educação podem frear o crescimento.



RICARDO XAVIER RH – Quais os desafios imediatos do País na área de infraestrutura?

Nóbrega - A infraestrutura é um dos grandes desafios para o Brasil, mas não é o único. Há um amplo conjunto de problemas a serem resolvidos: sistema tributário caótico, legislação trabalhista anacrônica, taxa de juros muito alta... Mas a infraestrutura é fundamental, pois ela permite a operação da logística. O próximo governo tem de priorizar essa área. Se Dilma for eleita, ela terá de rever as posições do PT neste campo, já que elas indicam que não haverá avanço nesta área – primeiro, porque o PAC não é relevante neste processo; e segundo, porque é necessário atrair capital privado. O modelo que o PT adotou para fazer concessões atrai pouco capital privado e gera menos benefícios em termos de melhoria da infraestrutura e da própria competitividade das empresas brasileiras.

RICARDO XAVIER RH – E se o tucano José Serra for eleito?

Nóbrega - Nesse caso, acho que as chances são maiores de termos novidade na infraestrutura. Temos o exemplo de São Paulo, que apresenta um bom modelo de concessão, particularmente de rodovias. O PT adotou o modelo da modicidade tarifária, que, a meu ver, não é o mais indicado. Ele tem um aspecto ideológico e político, que é mostrar à opinião pública que o PT faz concessão mais barata que o PSDB. Não é dessa forma que se resolvem questões assim, mas do ponto de vista da eficiência, da contribuição para a geração de bem estar no País. Fazer concessão com pedágio a R$ 1 não é a melhor solução.

RICARDO XAVIER RH – Muitos setores reclamam da falta de mão de obra qualificada. As empresas se veem obrigadas a treinar funcionários porque a qualidade egressa das universidades simplesmente não satisfaz o mercado, com algumas boas exceções. Como corrigir o rumo da educação?

Nóbrega - Esse é o resultado de anos de negligência em educação. O Brasil, durante muito tempo, foi um País que achava que a educação seria subproduto do desenvolvimento. E é justamente o contrário. Estamos pagando o preço por esse erro. Estamos gastando muito com educação, mas sem melhorar a qualidade dela. O Brasil investe no setor, proporcionalmente, tanto quanto a Coréia do Sul, mas a Coréia fica em primeiro lugar em testes internacionais, enquanto o Brasil aparece entre os últimos. Isso requer uma revolução na educação, algo que leva tempo. O setor privado não tem solução a não ser investir em preparação de mão de obra. Esses investimentos poderiam ser direcionados à melhoria tecnológica, à expansão das instalações...

RICARDO XAVIER RH – Qual a análise da economia mundial pós-crise?

Nóbrega O mundo rico migrou de uma situação perigosa, de colapso do sistema financeiro - que seria dramático -, para outro tipo de risco, o de baixo crescimento. Provavelmente, o mundo rico, como os Estados Unidos e o Japão, vai levar muitos anos para recuperar o ritmo de crescimento que prevalecia antes da turbulência. O Brasil saiu muito bem da crise, o que é um sinal importante para o futuro, ou seja, o País diminuiu sua vulnerabilidade às crises externas mediante modificações estruturais que aconteceram, como a consolidação do sistema financeiro e o volume de reservas internacionais. O Brasil desenvolveu instituições que inibem ações populistas na economia. Temos, por exemplo, o status de investment grade, e pela primeira vez enfrentamos uma crise com esse nível de classificação. Mas este não é um passaporte para a felicidade. O País tem enormes desafios para manter o ritmo de crescimento que tem prevalecido nos últimos anos. Sempre é bom lembrar que o governo do presidente Lula foi beneficiado por reformas estruturais empreendidas em governos anteriores, principalmente pelo governo FHC. O Brasil só continuará neste ritmo de produtividade se for possível fazer reformas estruturais. Sabemos o que é preciso fazer; a agenda é conhecida. O problema é como fazer. A tendência no próximo governo é de continuidade da política econômica. Serão mais quatro anos sem reformas no Brasil. Isso vai, de alguma forma, reduzir o ritmo de crescimento do País.

RICARDO XAVIER RH – O Brasil é um dos poucos países que têm relação comercial cordial com o Irã. Até que ponto isso pode influenciar o comércio exterior entre Brasil e Israel?

Nóbrega – Acho pouco provável que este fato influencie a relação comercial dos dois países. No comércio exterior, não há ideologia, mas sim interesses. É muito difícil que Israel comece a impor condições para importar ou exportar do Brasil – isto significaria sanção ao comércio exterior por conta das posições políticas do Brasil, que são lamentáveis. Israel encontra formas de demonstrar sua decepção com o fato de o presidente da República considerar um grande amigo dele o presidente do Irã, que é um ditador sanguinário. Uma das formas de manifestar desagrado é sair quando o ministro das Relações Exteriores faz um discurso. Foi o que a delegação de Israel fez na mais recente reunião da ONU.



   

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