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Samy Dana é bacharel e mestre em Economia com ênfase em Finanças, doutor em Administração pela FGV, Ph.D in Management (Field of Finance) e atua como professor desde 2001. Ministrou disciplinas ligadas a métodos quantitativos e finanças em cursos de graduação e pós-graduação em Economia e Administração. Publicou e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior. Trabalha ainda como consultor empresarial.

09/09/2010


ECONOMIA


PIB per capita deve continuar a crescer nos próximos anos



Após aumento recorde, a economia pode alçar expansão média de 5,8% anual entre 2011 e 2014; qualidade da infraestrutura e da educação são grandes desafios

Por Wagner Belmonte e Neide Martingo

Para manter o ritmo de crescimento econômico, o Brasil precisará enfrentar os problemas de infraestrutura e investir na qualidade da educação. Segundo o professor Samy Dana, de finanças da Fundação Getulio Vargas (FGV), estas são ações pontuais que os próximos governos terão de tomar: “A principal variável explicativa do crescimento do PIB é a produtividade. Esta, por sua vez, depende da qualidade educacional e do estoque de capital físico”, afirma. Dana acredita que o principal risco para o País é “ficar fadado a um crescimento de 4%, em vez de crescer 7% ou 8% ao ano”.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que a economia brasileira cresceu 8,9% no primeiro semestre deste ano em comparação com o mesmo período do ano passado. O desempenho é o melhor desde 1996. Segundo o IBGE, o resultado foi impulsionado principalmente pela indústria - cuja produção aumentou 14,2% e pela formação bruta de capital fixo (investimento produtivo) recorde, com expansão de 26,2% no período. Na comparação com outros países emergentes, apenas no segundo trimestre, a economia chinesa se expandiu 10,3%, a da Índia 8,8% e a da Rússia 5,2%. O resultado brasileiro não deixa de ser um alento num cenário global em que a confiança parece restabelecida com os efeitos da crise financeira internacional praticamente superados.

Na pesquisa "Indicadores de Desenvolvimento Sustentável", o IBGE aponta que, nos últimos 14 anos, o PIB per capita brasileiro cresceu 21,7%, e saltou de R$ 4.441,00 (em 1995) para R$ 5.405,00 (em 2009). Os dados excluem a inflação e os valores estão atrelados a preços de 1995. O indicador é usado como um "termômetro" do ritmo de crescimento. Para Dana, o PIB per capita mostra clara tendência de alta. “Como esperamos crescimento do PIB e estabilidade do crescimento populacional, o PIB per capita continuará crescendo nos próximos anos.”

Na mesma linha, o Ministério da Fazenda estima que, com a inflação e o gasto público sob controle, o ciclo de expansão sustentável se mantenha. Após um crescimento recorde neste ano, a economia poderá alcançar uma expansão média de 5,8% anual entre 2011 e 2014, preveem os analistas.

PERFIL - Samy Dana é bacharel e mestre em Economia com ênfase em Finanças, doutor em Administração pela FGV, Ph.D in Management (Field of Finance) e atua como professor desde 2001. Ministrou disciplinas ligadas a métodos quantitativos e finanças em cursos de graduação e pós-graduação em Economia e Administração. Publicou e apresentou trabalhos no Brasil e no exterior. Trabalha ainda como consultor empresarial.

Ricardo Xavier RH- Por que o Brasil está na 47ª posição quando o assunto é renda per capita se a economia caminha para se tornar a quinta do mundo? Quais são os principais entraves?

Samy Dana- O PIB per capita é dado pela razão entre o PIB e o tamanho da população. Como esperamos crescimento do PIB e estabilidade do crescimento populacional, o PIB per capita continuará crescendo nos próximos anos. Os dados do IBGE confirmam essa perspectiva.

Ricardo Xavier RH- No cenário dos países que compõem o BRIC, o Brasil permanecerá com uma renda per capita superior a de indianos e chineses, em especial pela grande pobreza que ainda há nestas nações?

Dana- É simples: o PIB per capita é a razão entre o PIB e o tamanho da população. Como China e Índia são os países mais populosos do mundo e o forte crescimento econômico é relativamente recente, o PIB per capita destes países ainda é muito inferior ao brasileiro.

Ricardo Xavier RH- Entre as nações do BRIC, somos a que polui menos?

Dana- Sim, sem dúvida

Ricardo Xavier RH- O fato de a produção brasileira ser mais limpa (ou menos predatória) pode se transformar num diferencial competitivo em nível internacional?

Dana- Sim, os investidores e consumidores olham cada vez mais o desenvolvimento sustentável das empresas. Isso faz com que o país ganhe credibilidade no mercado externo e, consequentemente, atraia investimentos. A China, por exemplo, é frequentemente acusada por não seguir princípios éticos e ambientais.

Ricardo Xavier RH- Como estaremos em relação a um novo bloco - MIST (México, Indonésia, South Africa e Turquia)? Este será um grupo que terá papel estratégico na economia global?

Dana- Como as nações desenvolvidas terão baixo crescimento econômico nos próximos anos, o crescimento global passará a depender cada vez mais de economias emergentes. Os BRICs serão, de fato, o grande bloco, porém as nações citadas também terão participação relevante.

Ricardo Xavier RH- Dessas quatro nações (do MIST), há alguma em condição para ocupar um papel diferenciado nesta nova ordem econômica global?

Dana- O México, devido sua proximidade com os Estados Unidos, sua população e extensão territorial, é um forte candidato no novo cenário econômico mundial. No entanto, todos estes países têm um potencial reduzido quando comparados com as nações que compõem o BRIC.

Ricardo Xavier RH- Nos dados consolidados do segundo trimestre, a economia chinesa superou a japonesa e já é a segunda maior do planeta. No entanto, se levado em conta todo o primeiro semestre, o Japão permanece à frente. A dívida pública japonesa pode ser vista como um risco à estabilidade econômica internacional?

Dana- O Japão não causa riscos para a economia internacional. Os japoneses possuem um cultura de poupança. Dessa forma, a chance de acontecer uma bolha de consumo (como vimos nos Estados Unidos, por exemplo, no mercado imobiliário) é muito pequena.

Ricardo Xavier RH- O senhor sugere estímulos ao crescimento do PIB. Quais as ações pontuais que os próximos governos podem tomar?

Dana- Como está na literatura econômica, a principal variável explicativa do crescimento do PIB é a produtividade. Esta, por sua vez, depende da qualidade educacional e do estoque de capital físico. Para o Brasil, as ações deveriam atacar a questão da educação e os gargalos de infraestrutura.

Ricardo Xavier RH- Se o Brasil alçar um ritmo de crescimento econômico na casa de 5% ao ano, a tendência é de que estes gargalos freiem um papel mais estratégico do País no cenário internacional. No mercado interno, o que pode ocorrer? Quais serão (internamente) os principais efeitos?

Dana- É fundamental que o Brasil invista em estrutura, devemos lembrar que quando a produção não acompanha o ritmo do consumo, ocorre inflação de demanda.

Ricardo Xavier RH – Qual o papel das reformas previdenciária e tributária neste sentido? O próximo governo terá um ambiente político favorável para finalmente tirá-las da frente?

Dana- Estas reformas serão importantes para elevar a poupança da economia e aumentar a competitividade. Pode-se dizer que, com a Olimpíada de 2016 e a Copa do Mundo de 2014, o Brasil terá uma série de investimentos e um fluxo positivo de capital estrangeiro. Assim sendo, o ambiente político para o Brasil é extremamente favorável.

Ricardo Xavier RH- E a legislação trabalhista? Ela afugenta investimentos externos e está extremamente obsoleta segundo os empresários. O que emperra a sua reformulação?

Dana- Falta de vontade política e lobby dos sindicatos.

Ricardo Xavier RH- Quais os riscos econômicos no médio prazo por não se promover estas reformas – previdenciária, tributária e trabalhista?

Dana- O risco Brasil, ou seja, a percepção de risco do investidor estrangeiro é composta por todos estes riscos. A taxa de juros brasileira tem ser atraente para o investidor estrangeiro. Dessa forma, caso não haja estas reformas providenciais, o Brasil terá que continuar pagando uma taxa de juros alta para compensar o risco que o investidor estrangeiro incorre ao investir no País.

Ricardo Xavier RH- Quais as principais desvantagens da economia brasileira em relação às demais nações do BRIC que devem resistir ao tempo e persistir até 2032?

Dana- Atualmente, temos menor taxa de poupança doméstica, o que implica menos investimentos.

Ricardo Xavier RH- O controle da taxa de natalidade é sempre considerado muito polêmico. Ele poderia ajudar a construir um cenário de crescimento econômico mais sólido no médio prazo? Qual o principal benefício que ele traria? Como o governo poderia empreender esse controle?

Dana- O controle de natalidade ajuda a elevar o PIB per capita. A China o adota. No Brasil, naturalmente, as famílias têm se conscientizado e a taxa de natalidade está em forte queda.

Ricardo Xavier RH - O senhor também toca em dois pontos cruciais: infraestrutura e educação. O modelo de progressão continuada não deu o que tinha que dar? Não poderíamos nos inspirar mais no exemplo da Coréia do Sul de universalização do ensino num primeiro momento para, depois, investir na qualidade do ensino?

Dana- Já está na hora de investir em qualidade. A educação é a única maneira de quebrar a barreira do subdesenvolvimento. O programa de progressão continuada é o primeiro passo, pois ele mantém o aluno na escola, no entanto, caso não haja um controle de qualidade, o problema do ensino jamais será resolvido. Exemplos como o da Coreia do Sul deveriam ser adotados para o caso brasileiro.

Ricardo Xavier RH - Quais os riscos para o País em função dos efeitos da qualidade da educação no médio prazo?

Dana- Ficar fadado ao crescimento de 4%, em vez de crescer 7% ou 8% ao ano.

Ricardo Xavier RH- A Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada no Rio em 2016 podem ser vistas como oportunidades para que o País reduza seus gaps de infraestrutura? O senhor não acha que o colapso portuário e aeroportuário é iminente?

Dana- Sim, nosso sistema portuário e aeroportuário não é condizente com a importância que o Brasil almeja na economia mundial. Os meios públicos de transporte são pífios; uma cidade como São Paulo, por exemplo, deveria ter um metrô com, pelo menos, quatro vezes o tamanho que tem. O sistema atual é altamente ineficiente, deixando as empresas com custos pouco competitivos.

Ricardo Xavier RH - Corremos o risco de perder este papel estratégico que nos atribuem pela soma destes fatores: má qualidade da educação e da infraestrutura, além de um estado mastodôntico?

Dana- Sim, como eu disse antes, há duas grandes necessidades de investimento: educação e infraestrutura. Educação, primeiramente, é a única maneira de transformar um país tipicamente exportador em um país que produz bens finais como propriedade intelectual. Sem educação, estamos fadados ao subdesenvolvimento. A infraestrutura define as condições que o Brasil terá de crescer e acompanhar o consumo interno. Adicionalmente, a infraestrutura atrai empresas para que façam seus negócios no país.




   

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