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Jackson Schneider é presidente da Anfavea Ele fala sobre o crescimento do setor automotivo e as expectativas para 2007. Mantida a toada, 2007 será o melhor ano da história da indústria automobilística no País. O mês de maio foi o que teve o resultado mais expressivo dos últimos 50 anos. Como se não bastasse, o emprego no setor também sinaliza novos tempos. Em três anos e meio (desde dezembro de 2003), 20 mil postos foram gerados. Na prática, os 90,7 mil empregados daquela época são hoje 110,7 mil.

14/12/2007


Indústria - Recuperação dita 'ritmo' e sucessivos recordes na área automotiva



Por Wagner Belmonte e Raquel Prado*


A indústria automotiva completou 50 anos de Brasil e chegou à marca de 50 milhões de unidades produzidas. Em abril de 1997, o segmento atingia 30 milhões, ou seja, nos últimos 10 anos foram produzidos mais de 20 milhões de veículos.


A dança da alíquota do Imposto de Importação na década passada inviabilizou a operação como negócio e atraiu indústrias que produzem carros globais e os exportam. O efeito é claro: competitividade, aumento da qualidade do produto como conseqüência, receptividade do mercado externo e um bom saldo na balança comercial. Quem quisesse ter volume de vendas – e talvez esse tenha sido o efeito mais positivo – teria de se instalar por aqui. Ao fabricar no Brasil, a cadeia toda do setor, que envolve mais de 200 mil empresas, geraria empregos.


Os números nos primeiros cinco meses do ano mostram também que segmentos como o de máquinas agrícolas começam a recuperar parte das perdas dos últimos anos e ainda têm, segundo executivos ligados à Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), um bom espaço a percorrer.


O novo presidente da entidade, Jackson Schneider, anunciou que a produção de veículos em maio cresceu 15,9% sobre abril (258,9 mil contra 223,3mil). Na área agrícola, o crescimento foi de 8,4%. As exportações chegaram a US$ 1,130 bilhão, com crescimento de 16% sobre abril e de 3,1% sobre maio do ano passado.


Tecnologia – As vendas de carros leves com tecnologia flex fuel chegaram a 3,3 milhões desde o lançamento, em março de 2003. E a Volkswagen anunciou que alcançou a marca de um milhão de veículos flex comercializados no País.


Ao anunciar os resultados, Schneider mostrou-se preocupado com o dólar apreciado, falou do “Plano Safra” e analisou o comportamento do setor produtivo naquele que pode ser o melhor ano da história para a indústria automotiva.


Manager: Foi o melhor mês de maio da história na indústria automobilística, mas o volume de emprego cresceu apenas 1% em relação a abril. O que inibe o desenvolvimento do emprego no setor?


Jacson Schneider: O emprego tem crescido de forma consistente mês a mês. O que acontece do anúncio do emprego até a sua efetivação demanda um determinado tempo, tanto para que os eventuais candidatos sejam entrevistados, selecionados, examinados e depois contratados. Alguns, eventualmente, implicam mudanças de posições, saem de uma empresa para entrar em outra e, portanto, exigem um tempo para que o trabalhador seja contatado e contratado. Se nós examinarmos os números, podemos ver um crescimento de emprego da ordem de mil e quatrocentos novos postos no mês. No mês passado, tivemos um aumento de emprego e já existe uma expectativa em relação aos anúncios efetivados de que vamos ter um novo crescimento de emprego no mês que vem.


Manager: O número positivo também nas vendas chegou a surpreender?


Schneider : É um número positivo de crescimento importante e significativo. São 24% sobre o mesmo período do ano passado e eventuais faltas de produtos no mercado são localizadas, mas são especificas de produtos e dizem respeito a consumidores que querem um determinado produto com algum tipo de acessório indisponível no momento.


Manager: É essa procura crescente que tem provocado o impacto no volume de empregos?


Schneider: Os anúncios que temos de contratação de novos turnos e o aumento de investimento em capacidade de produção no médio prazo solucionarão claramente essa específica falta de um produto ou de outro.


Manager: A Bolsa de Xangai andou dando “susto” novamente e chegou a cair 8,26% no pregão de segunda-feira, 4 de junho. O dólar tem ficado em R$ 1,90, com o câmbio apreciado. Até que ponto o cenário externo interfere diretamente nos planos das montadoras em relação a exportações?


Schneider: As exportações preocupam; elas têm demonstrado uma queda importante comparando este período de cinco meses de 2007 em relação a 2006. No período de janeiro a maio deste ano, 312 mil carros foram exportados contra pouco mais de 350 mil nos primeiros cinco meses do ano passado. Isso, em números absolutos, representa uma queda de quase 11% (10,7%). É uma queda significativa, influenciada pela apreciação do real e esta é uma preocupação do setor. Temos de avaliar e, junto com as autoridades responsáveis, buscar soluções. Em dólares, no entanto, as exportações cresceram 0,7% nos cinco primeiros meses deste ano em relação ao mesmo período do ano passado. E em maio, na comparação com maio do ano passado, o crescimento foi de 3,1%.


Manager: Quais as soluções que estão sendo buscadas?


Schneider: Temos de conversar, mas uma delas passa, claramente, pela garantia das condições de competição do produto feito no Brasil. Esse produto tem que ter a condição de competitividade em grau de igualdade com outros produtos de outros mercados nos nossos mercados exportadores.


Manager: Outro número que chama a atenção é que 49% dos consumidores compram o carro parcelado em mais de 36 meses. O senhor avaliou esse número como positivo, mas isso não mostra também um endividamento maior e uma escassez de recursos no mercado?


Schneider: Não. Crédito é um fator positivo porque estimula a venda e ajuda o consumidor a adquirir o produto que ele quer. Haveria uma preocupação se esse crédito estivesse sufocado por um aumento absurdo de taxa de inadimplência, o que não ocorre. A taxa de inadimplência do setor está absolutamente aceitável, num patamar com menos da metade da taxa de inadimplência dos bens em geral, portanto, não vemos isso como uma preocupação.


Manager: O setor pretende aproveitar o mercado aquecido para, eventualmente, repassar alguns custos que foram elevados, como o do aço e o próprio custo da mão-de-obra que, se comparado ao dólar, cresceu?


Schneider: O aumento de preço é uma decisão específica de cada montadora. O setor não acompanha e não opina sobre o aumento de preços de veículos ou de produtos. O aumento específico de aço ocorreu e temos notícias que estão sendo solicitados aumentos maiores do que a inflação. Claro que isso tem reflexo sobre custos, mas um eventual repasse para preços é uma decisão específica das montadoras.


Manager: Um aumento na inspeção veicular na cidade de São Paulo pode ser o primeiro passo para a volta do programa de renovação de frota?


Schneider: Todas as iniciativas que visem estruturar programas no sentido de controlar a segurança do veículo e controlar a emissão de poluentes são positivas e bem-vindas como essa da cidade de São Paulo. Isso pode estimular e acreditamos que seria extremamente positivo que isso pudesse ser realizado num nível mais abrangente, englobando o Brasil como um todo.


Manager: A falta de investimento público em infra-estrutura não segue o mesmo ritmo das indústrias automobilísticas. Isso preocupa? A questão portuária, por exemplo, pode provocar efeitos no curto prazo?


Schneider: Nós estamos extremamente animados com o anúncio do PAC. Ele é um anúncio na direção certa, tanto pelos montantes envolvidos, quanto pelas características dos investimentos anunciados, justamente visando à solução desses sistemas identificados como “gargalos logísticos”.


Manager: Os carros bicombustíveis viraram um sucesso inquestionável. Qual o coeficiente de vendas de veículos flex no momento?


Schneider: O etanol é um exemplo de sucesso; o carro flex é outro exemplo de sucesso sem igual. No mês de maio, 84% das vendas de veículos foram dos que possuem motores flex. Esse número, por si só, demonstra a história de sucesso que esse produto tem no mercado brasileiro.


Manager: Tudo caminha para que esse seja o melhor ano da história na indústria automobilística no Brasil?


Schneider: Eu espero. Sou positivo e tenho uma expectativa positiva em relação aos números que estamos anunciando. Até agora, nós temos anunciado crescimentos recordes de produção e do mercado interno; temos a perspectiva que isso se complete e se mantenha até o final do ano.


Manager: Por que a decisão de aguardar o anúncio do “Plano Safra” para rever as projeções para o setor agrícola?


Schneider: O Plano Safra, que não envolve apenas a questão do crédito para custeio ou para investimento, é basicamente toda a definição das regras que estão na competência do governo para o ano agrícola que se inicia em 1º. de julho e que se encerra em 30 de junho de cada ano. Neste caso, temos o preço mínimo, a questão do seguro, a questão do orçamento para crédito e é por isso que neste ano, principalmente, que é um ano de retomada, nós vimos pelos números que o Plano Safra vai ser tão importante como indicador desta tendência.


Manager: Essa retomada é apenas parte daquilo que o setor perdeu no segmento de máquinas agrícolas?


Schneider: De 2004 a 2006, nós perdemos vendas; o mercado diminuiu bastante. Em colheitadeiras, a queda na produção foi de cerca de 60% a 70%. Nós já chegamos a produzir 10 mil máquinas e, no ano passado, foram cerca de 3 mil máquinas. Neste ano, a sinalização é para chegarmos em torno de 4 mil máquinas de produção, sendo uma parte para o mercado interno e a outra parte para exportação. Nos tratores, nós deveríamos estar para o mercado interno ao redor de 25 mil tratores, o que já representa uma recuperação em relação ao ano passado.


Manager: Recuperação, mas não crescimento?


Schneider: Isso. É uma recuperação de uma base que a indústria já teve e que agora está numa retomada.


Manager: Como está o emprego na área agrícola? Especificamente neste setor foram abertas 400 vagas no último mês...


Schneider A readmissão de pessoas está diretamente ligada à retomada da produção e à busca daqueles ex-funcionários ou de novos contratados que estão no mercado e que a indústria vê que esse é o momento necessário para que se recomponha o quadro. É um processo que está em curso.


Manager: De modo geral, a que o setor credita esses números tão expressivos?


Schneider A um conjunto de fatores: estabilidade macroeconômica, confiança do consumidor na economia, condição de previsão no longo prazo, disponibilidade de crédito, possibilidade de contratar crédito a longo prazo fazendo com que a prestação fique menor, caiba no bolso do consumidor e o leve a ter uma condição de compra mais favorecida. Esse conjunto de fatores permitiram esse crescimento de mercado interno.


Manager: E por que não rever a previsão anual? O que ainda respalda uma ou outra cautela do setor em relação ao segundo semestre?


Schneider Uma mera questão de metodologia técnica. Quando nós comentamos os números do setor, comentamos sobre o setor de modo geral, envolvendo desde carros de passeios, passando por caminhões e ônibus, mas também englobando máquinas agrícolas e tratores. As máquinas agrícolas e tratores são segmentos importantes no nosso setor e estão com a expectativa da divulgação do Plano Safra. Com base nisso, temos uma repercussão imediata nas previsões de máquinas agrícolas e tratores e nós resolvemos aguardar esta divulgação, fechando os números de junho para fazer as reavaliações necessárias e os ajustes de expectativas e projeções. Os números, até agora, têm mostrado que o ano deve ser muito bom, o melhor que já tivemos, mas ainda é só uma mera questão de metodologia técnica.




   

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