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Eduardo Terra é graduado em Administração de Marketing, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Fez MBA na Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e é mestre em Administração pela Faculdade de Economia e Administração (FEA), também da Universidade de São Paulo. Especializou-se na European Retail – Manchester Business School. Atualmente, ele é diretor-geral e professor da UBS – União Business School. Leciona na FIA , nos cursos de pós e MBA; é professor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e também da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no MBA de Negócios da Saúde. Terra é sócio-diretor da Felisoni Consultores Associados e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e do Mercado de Consumo (Ibevar).

06/01/2012


CARREIRA


Especialista alerta para risco de “apagão” na área de TI



A qualidade do ensino básico é um grande entrave que resulta na falta de gente qualificada no setor. O País vai gerar 750 mil postos até 2020 e há, atualmente, 90 mil vagas à espera de candidatos com capacitação

Por Wagner Belmonte e Clarisse Sousa

Um estudo da consultoria IDC Brasil aponta que o mercado de Tecnologia da Informação (TI) deve se expandir de 10% a 12% neste ano, enquanto a estimativa para 2011 - os números ainda não estão fechados - ficou entre 10% e 15%, segundo a Associação Brasileira de Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação, a Brasscom. De acordo com a projeção da IDC Brasil, o mercado mundial de TI movimentou mais de US$ 1 trilhão no ano passado, um aumento de 7,5% na comparação com 2010.

A expansão, vale destacar, não considera os gastos com mão de obra. Atualmente, o Brasil, que se tornou a sexta economia do mundo com PIB acima de US$ 2,5 trilhões e se aproxima da França, a quinta com uma economia de US$ 2,8 trilhões, ocupa apenas a oitava posição entre os maiores mercados de TI do mundo.

A ascensão da classe C, os investimentos para a Copa de 2014 e a Olimpíada de 2016 deveriam ser fatores capazes de manter o mercado interno aquecido. Mas não é exatamente isso o que tem acontecido: a oferta de mão de obra especializada não acompanha o ritmo de crescimento. O mercado brasileiro tornou-se alvo de investimentos estrangeiros, mas as empresas que aqui desembarcam sentem dificuldades para encontrar profissionais preparados para ocupar as vagas que oferecem.

O diretor-geral da UBS, a União Business School, Eduardo Terra, enaltece o efeito daquilo que chama de “democratização” do ensino superior nos últimos anos. Segundo ele, há uma diferença nos investimentos voltados à formação de profissionais em relação a outros países, como a Índia. “Não há profissionais suficientes. Vivemos quase um apagão. O Brasil forma, por exemplo, poucos engenheiros, profissão facilmente associada à tecnologia. Não possuímos programas fortes em nível técnico, para formar profissionais de nível médio. Nosso problema de formação é muito sério”, alerta.

Em 2006, um estudo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) acenava com uma previsão sobre a qualidade da educação no País. A Unesco indicava que o Brasil demoraria 30 anos para alcançar o nível de alguns países como a Índia, por exemplo, um centro de referência em áreas de estudo de ponta, como tecnologia da informação e telecomunicações. Quatro anos depois, outro estudo da Unesco trouxe o Brasil no 88º lugar num ranking de educação que envolvia 127 países. O País ficou entre os de nível "médio" de desenvolvimento, atrás de Argentina, Chile, Equador e Bolívia.

O alerta de Eduardo tem respaldo naquilo que o mercado de trabalho constata no dia a dia. O executivo está na UBS - Faculdade União de Administração – desde a sua criação, em 2009. Fundada por professores da Universidade de São Paulo (USP), ela é uma instituição com a proposta de treinar e desenvolver competências técnicas e gerenciais. Em dois anos, a UBS ampliou a sua atuação. Em 2009, oferecia apenas um curso de graduação e tinha cem alunos. Atualmente, a faculdade possui quatro cursos de graduação, um de lato-sensu (especialização) e oito MBAs. Ao todo, três anos depois, são 600 alunos.

Terra também reconhece a importância do acesso ao ensino superior, mas diz que ainda há um grande desafio: vencer o analfabetismo funcional no País. Ele acredita que o primeiro passo para reverter a situação é melhorar a educação básica. “Os alunos chegam muito mal preparados. Na faculdade, em vez de serem tratados assuntos relativos à formação profissional, muitas vezes é preciso voltar ao básico para preencher lacunas que foram deixadas na formação do aluno”, avalia. Ele concorda que o maior problema do Brasil é justamente a má qualidade do ensino. “Não existe nenhum indício no mundo de que a educação formal seja dispensável para o sucesso de um país”. Para o professor, “se o aluno chegasse um pouco mais lapidado no ensino superior, tudo seria mais simples”.

Há vagas - O setor de TI tem aproximadamente 90 mil vagas de emprego sobrando. Um levantamento sobre a mão de obra especializada, divulgado pela Brasscom, indica a extensão das oportunidades que se abrem: serão necessários mais 750 mil profissionais até 2020. Hoje, o Brasil possui cerca de 1,2 milhão de trabalhadores na área de TI. De acordo com a associação, se este quadro for mantido, em 2013 serão 200 mil as vagas “em aberto”. Para aumentar em 50% a participação do setor no coeficiente do PIB até 2020, a área terá de formar mão de obra tecnológica e com conhecimento da língua inglesa. “O cenário mostra que a demanda será por pessoas, mas também por processos”, argumenta Terra. Para manter estes profissionais, o diretor pontua que as empresas precisam oferecer muito mais do que um bom salário, já que a nova geração caracteriza-se pela busca de oportunidades. “Salário é uma visão de curto prazo. Precisamos falar, no mínimo, em salário e perspectivas”, explica.

Os desafios e as chances de crescimento são amplas, mas é importante criar uma estrutura pela qual seja possível colocar o País em parâmetro de competitividade externa. O risco de um “apagão” na formação de gente para atuar no mercado de TI pode mergulhar o Brasil num atraso em relação a nações mais atentas às oportunidades neste nicho.

Perfil - Eduardo Terra é graduado em Administração de Marketing, pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Fez MBA na Fundação Instituto de Administração (FIA-USP) e é mestre em Administração pela Faculdade de Economia e Administração (FEA), também da Universidade de São Paulo. Especializou-se na European Retail – Manchester Business School.

Atualmente, ele é diretor-geral e professor da UBS – União Business School. Leciona na FIA , nos cursos de pós e MBA; é professor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) e também da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP), no MBA de Negócios da Saúde. Terra é sócio-diretor da Felisoni Consultores Associados e vice-presidente do Instituto Brasileiro de Executivos do Varejo e do Mercado de Consumo (Ibevar).

Ricardo Xavier RH - O mercado de TI é mais sensível a importar ou exportar tecnologia?

Eduardo Terra - O grande problema é a importação "preguiçosa", que simplesmente traz a tecnologia de outros países, sem nos dar a oportunidade de desenvolvê-la. Por outro lado, a importação que nos permite ter oportunidades de desenvolvimento é benéfica. Um bom exemplo é o episódio da compra dos aviões - os caças do governo federal na área de Defesa. Não compensa para o Brasil, a médio e longo prazos, importar uma "caixa preta".

Ricardo Xavier RH - Quais as tendências para o mercado de TI nos próximos anos?

Terra - Muita mudança. Cada vez mais, falaremos de TI envolvendo pessoas e processos. Grandes sistemas e tecnologias fracassam por falta de processos adequados ou de pessoal especializado. O "Cloud Computing", por exemplo, é uma nova tendência, muito forte. Armazenamos informações em servidores externos em vez de usarmos discos rígidos. A tecnologia de automação também é outra tendência, que começou com o código de barras e hoje já evoluiu para tecnologias como a rádio-frequência identificada.

Ricardo Xavier RH - O que mais impulsiona a revolução digital?

Terra - O retorno sobre o investimento, que é fácil calcular, com dinheiro, pessoas, horas, entre outros fatores. O retorno em si já é um pouco mais difícil, pois é intangível. É difícil mensurar, por exemplo, a satisfação do cliente final. O principal desafio é apostar no retorno sobre investimento e ter uma ideia clara sobre ele.

Ricardo Xavier RH - Há profissionais suficientes para atender à demanda? Em que estágio o Brasil está em relação a países como a Índia?

Terra - Não há profissionais suficientes. Vivemos quase um apagão. O Brasil forma, por exemplo, poucos engenheiros - uma profissão facilmente associada à tecnologia. Não possuímos programas fortes em nível técnico para formar profissionais de nível médio. Nosso problema de formação é muito sério. Em relação a outros países, como a Índia, há uma diferença enorme, principalmente no que tange ao investimento na formação de profissionais.

Ricardo Xavier RH - Qual deveria ser a formação dos profissionais? Muitos jovens aprendem com experiências pessoais e se dizem preparados para disputar uma vaga.

Terra - Não podemos radicalizar quando o assunto é educação. É um processo amplo, composto por vivência, tentativa, erro e educação formal. Não existe nenhum indício no mundo de que a educação formal seja dispensável para o sucesso de um país. E é justamente aí que está o problema do Brasil. Vencer o analfabetismo funcional é um grande desafio. O primeiro passo para reverter a situação é melhorar a educação básica.

Ricardo Xavier RH - A disputa das empresas por estes profissionais é crescente. Como retê-los?

Terra - Salário é uma visão de curto prazo. Precisamos falar, no mínimo, em salário e perspectivas. As pessoas querem ganhar hoje e melhorar a sua condição futura. A palavra chave é perspectiva de crescimento. Principalmente para a nova geração, a chamada "geração Y", itens como ambiente de trabalho e desafios profissionais são levados muito em conta na hora de reter o profissional. Eles chegam a ter peso igual, ou maior, que um alto salário.

Ricardo Xavier RH - As faculdades estão preparadas e os cursos que elas oferecem são de boa qualidade?

Terra - Nós evoluímos muito. O problema hoje em dia não são as faculdades, mas é o ensino médio. Os alunos chegam mal preparados ao ensino superior. Na faculdade, em vez de serem tratados assuntos relativos à formação profissional, muitas vezes é preciso voltar ao básico para preencher lacunas que foram deixadas na formação do aluno. No Brasil, houve nos últimos anos uma democratização do ensino superior. É mais fácil fazer uma faculdade hoje em dia. Se o aluno chegasse um pouco mais lapidado ao ensino superior, tudo seria mais simples.

Ricardo Xavier RH - Especialistas também dizem que os desafios tecnológicos previstos na organização da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, serão maiores do que os projetados para a Copa de 2014. Por quê?

Eduardo Terra - A Olimpíada é um elemento mais plural, apesar da complexidade da Copa. A questão tecnológica de transmissão do evento, o ato de ir e vir dos estádios tem de ser levado em conta. Quando se fala de Olimpíada, existem mais atletas, com delegações maiores. Não se trata da audiência, e sim da complexidade do evento. De fato, devido à diversidade entre ambos, a demanda por tecnologia é completamente diferente.

Ricardo Xavier RH - Qual o setor mais sensível a receber este aporte tecnológico?

Terra - O maior gargalo do Brasil é, sem dúvida, a mobilidade urbana. O conjunto transporte/infraestrutura é o que necessita de maior investimento tecnológico. O principal problema para sediar a Olimpíada e Copa não são os estádios, mas as cidades. O Rio de Janeiro, por exemplo, já possui uma estrutura básica pronta para sediar um evento desse porte, com lagoas, praias e estádios. O maior problema será o transporte aéreo e urbano.




   

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