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Tharcísio Bierrenbach de Souza Santos é economista formado pela Universidade de São Paulo, com cursos de especialização na State University of New York (SUNY), e doutorado em Ciências pela USP. Desde 1981, ele ocupa o cargo de professor doutor titular da Faap. Santos é professor e diretor do MBA da instituição desde 1998, onde é responsável pelos cursos de Globalização e Competitividade, Cenários Econômicos, Organização do Futuro e Gestão Estratégica de Crises.

28/09/2011


CENÁRIOS


“Precisamos de um choque de competitividade”



Doutor em economia, o diretor do MBA da Faap alerta para duas urgências: a reforma tributária e o investimento em educação 

Wagner Belmonte  

Um número divulgado nesta semana dimensiona o tamanho da crise financeira e o desafio que ela impõe ao equilíbrio econômico global. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), e apesar de as taxas de desemprego terem diminuído na maioria dos países que formam o chamado G20, 200 milhões de trabalhadores estão, neste momento, sem emprego. O dado é o resultado de um estudo feito com a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

O alerta pode ser considerado ainda mais preocupante porque, se as taxas de crescimento de empregos se mantiverem no atual nível de 1%, 20 milhões de postos de trabalho perdidos nos países que compõem as 20 principais economias do planeta estarão definitivamente eliminados em mais um efeito da crise de 2008. Com menos de 1% de crescimento, o "déficit" de empregos pode até dobrar.

Por aqui, outras preocupações assustam o mercado: o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) corre o risco de ficar acima do teto da meta de 6,5% prevista para este ano. O presidente do Banco Central, Alexandre Tombini, apressou-se em dizer ao mercado que a inflação permanece controlada. Enquanto isso, o governo federal - que inicialmente projetara um crescimento de 5% para o PIB em 2011 – teve de lidar com uma nova estimativa, desta vez do FMI, que considera que a economia brasileira não vai crescer os 4,5% previstos na segunda projeção do governo, mas 3,8% em 2011.  

Na posse para um novo mandato do presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, o empresariado voltou a cobrar medidas para que o País tenha condições de enfrentar a crise, e ouviu do ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Fernando Pimentel – que representava a presidente Dilma Rousseff -, que o Brasil não é uma ilha, “mas uma embarcação sólida”. Somados a estes problemas, estão perdas expressivas de quem apostou na Bolsa de Valores, a recuperação repentina do dólar – que parece decorrer muito mais da instabilidade internacional – e os já conhecidos gaps de infraestrutura. Em suma: problemas econômicos nos Estados Unidos e em países europeus, especialmente na Grécia e na Itália, podem respingar no Brasil. Doutor e professor titular da Faculdade de Administração e Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), o economista Tharcísio Bierrenbach de Souza Santos é cauteloso. “O equilíbrio fiscal deveria tomar o lugar dos juros altos para segurar a inflação. Além disso, os percalços internacionais diminuem os espaços para que empresas brasileiras vendam lá fora.” Santos enaltece ainda outro problema que ameaça a competitividade brasileira: a falta de investimento em educação.

Perfil - Tharcísio Bierrenbach de Souza Santos é economista formado pela Universidade de São Paulo, com cursos de especialização na State University of New York (SUNY), e doutorado em Ciências pela USP. Desde 1981, ele ocupa o cargo de professor doutor titular da Faap. Santos é professor e diretor do MBA da instituição desde 1998, onde é responsável pelos cursos de Globalização e Competitividade, Cenários Econômicos, Organização do Futuro e Gestão Estratégica de Crises.  

Ricardo Xavier RH - A aposta do governo para conter a inflação permanece apoiada na fórmula de manter os juros altos, apesar de ter reduzido em meio ponto a taxa Selic, contrariando a expectativa do mercado. É um bom caminho?

Tharcísio Bierrenbach de Souza Santos - Não. Neste caso, o equilíbrio fiscal tem um papel fundamental. Como no Brasil não existe equilíbrio fiscal e o País gerencia suas contas de maneira inadequada, o que sobra é usar as ferramentas de política monetária para conseguir equilibrar aquilo que a política fiscal não permite.

Ricardo Xavier RH - Até que ponto a inflação está realmente controlada?

Santos - A inflação caminha para o controle. Em primeiro lugar, a economia está se desaquecendo e temos caminhado para uma inflação realmente mais baixa. Essa é a previsão de todos que trabalham na área de projeção e cenários econômicos. O clima, em termos mundiais, é muito ruim para a economia como um todo. No Brasil, não é diferente. Há, porém, um cenário de desaquecimento gradual e progressivo. Não acho que a inflação seja o problema mais sério a se enfrentar, e sim como será possível dar conta de manter o crescimento econômico.

Ricardo Xavier RH - Levando em conta que o câmbio é diretamente afetado por essa política e o consumo continua aquecido, qual seria a maneira de conter os índices inflacionários?

Santos - Não acho que o consumo esteja aquecido. Na verdade, ele já está caindo. Houve uma pequena redução do consumo, em agosto em relação a julho.

Ricardo Xavier RH – Mas a ministra do Planejamento, Mirian Belchior, disse recentemente que os desafios agora são a consolidação fiscal, o combate à inflação e o câmbio valorizado. O senhor concorda?

Santos - O câmbio não é um desafio para a ministra ou para o governo. O câmbio adequado é aquele que flutua livremente, subindo e descendo. O que o governo precisa fazer é ganhar competitividade com o gerenciamento macroeconômico adequado, algo que não se possui hoje.

Ricardo Xavier RH – São muitas as empresas que têm ficado em posição difícil, já que os produtos vendidos lá fora são mais baratos do que os mesmos itens comercializados no mercado interno. Isso por conta do câmbio e dos impostos. O que fazer?

Santos – É preciso um choque de competitividade. Primeiro, é necessária uma reforma tributária, mudando o sistema atual que não é compatível com o tamanho e o estágio de crescimento econômico do País. Em segundo lugar, fazer um investimento maciço em educação e tecnologia para recuperar essa competitividade. Mexer no câmbio não é o caminho para recuperar o que perdemos.

Ricardo Xavier RH - A valorização do real e a consequente depreciação do dólar têm inibido as exportações. Fala-se até no risco de desindustrialização em setores mais sensíveis, como a indústria de máquinas. Este risco é iminente?

Santos – Sim, isso é um problema. O que é preciso fazer é investir em tecnologia e baixar o custo do produto brasileiro - não mexendo no câmbio, mas nos demais fatores. Reduzir a carga tributária e melhorar a infraestrutura, que acrescenta custos desnecessários ao preço final. A burocracia é terrível, e também custa dinheiro. Abrir uma empresa no Brasil leva 155 dias, enquanto no resto do mundo o mesmo processo leva até cinco dias. Essa burocracia custa muito dinheiro. Esses fatores, além do câmbio, precisam ser objeto de maior atenção do governo.

Ricardo Xavier RH - O plano industrial do governo protegerá a indústria ou é apenas uma carta de boas intenções?

Santos - É apenas uma carta de boas intenções; não é um programa consistente.

Ricardo Xavier RH - Como a crise financeira norte-americana e os problemas que o presidente Obama tem enfrentado podem afetar o Brasil? O aumento do teto da dívida foi aprovado recentemente. Porém, quais serão os desdobramentos para o Brasil e para o mundo?

Santos - Uma crise prolongada nos Estados Unidos diminui um pedaço substantivo do mercado no mundo inteiro. O americano, em 2007-2008, gastava em consumo algo em torno de 74 % do PIB. Se, após essa crise, passar a gastar um valor igual à média do resto do mundo, entre 55% e 60%, desaparecerá um pedaço do mercado mundial que não tem substituto. Não serão os chineses, os brasileiros ou os russos... Esse mercado perdido significa vendas a menos para todos.

Ricardo Xavier RH – Alguns países da Europa também passam por sérias dificuldades financeiras.  Como isso pode nos afetar?

Santos – São mercados a menos para nós. O problema na Europa é ainda mais complicado. Estes países possuem uma população velha, que está sendo chamada a pagar mais impostos ou a ter de lidar com o corte de benefícios. Em minha opinião, as duas coisas são difíceis de se realizar, ainda mais com uma população idosa. Será algo complicado de lidar, e poderá reduzir uma fatia de mercado que utilizamos para vender nossos produtos. 

Ricardo Xavier RH - Há muito tempo se fala que a infraestrutura no Brasil é precária. A economia está em expansão e o temor é de que a atual estrutura não dê conta do aumento da demanda. Qual a solução?

Santos - O governo está investindo mal nessa área. É necessária uma parceria público-privada que funcione, sem corrupção. O PAC é apenas um conjunto de boas intenções, e não existe de fato. Ele está muito atrasado em relação à programação inicial.

Ricardo Xavier RH - O custo Brasil é outro antigo ponto de discussão. O senhor enxerga avanços no governo Dilma? O que pode ser feito no curto prazo?

Santos - Não vejo avanço no governo Dilma. No governo Lula, tivemos a sorte de ver uma situação difícil virar positiva fortuitamente. Nesse atual governo, as coisas não serão tão fáceis. Não estou otimista. O País tem tudo para ter um futuro brilhante, poderia até chegar ao quarto lugar entre as maiores economias do mundo entre 2016 e 2018, mas dificilmente conseguirá isso, pois não há competência e os problemas estruturais persistem.

Ricardo Xavier RH - Há vagas nas empresas, mas falta quem as possa preencher. Muitos especialistas dizem que o crescimento do Brasil só será continuado se o investimento em educação for priorizado. Isso está acontecendo?

Santos - O problema da educação é um dos mais graves do País. É necessário investir não só nas universidades, mas também na cadeia inteira de ensino. A Coreia do Sul deu um enorme salto por ter investido em educação. Lá, 100% das crianças permanecem na escola por oito horas diárias, e os professores primários ou de curso fundamental possuem mestrado e têm ótimos salários. Algum dia foi feito o investimento e, por isso, agora eles colhem os frutos.

 



   

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