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Marcelo Rocha e Silva Zorovich é professor do curso de Relações Internacionais com ênfase em Marketing e Negócios, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ele se dedica atualmente a projetos de gestão internacional e se prepara para o doutorado, além de fazer estudos sobre o mercado asiático - incluindo o entendimento do mandarim

05/08/2011


CARREIRA


Área de Relações Internacionais exige profissional multidisciplinar



Falar várias línguas não é suficiente. O caminho, agora, precisa ser trilhado também com experiências no exterior

Por Wagner Belmonte e Neide Martingo 

Não é de hoje que o Brasil tem conseguido espaço e projeção no exterior. A sétima maior economia do mundo sofreu menos a intensidade e os efeitos da crise financeira internacional. Isso não permite que o País permaneça, como sugere a letra do Hino Nacional, deitado em berço esplêndido. Os desafios são muitos: reduzir os juros, incentivar a exportação, conter o chamado “Custo-Brasil”, eliminar os muitos gargalos de infraestrutura (em especial os portuários e aeroportuários), melhorar a qualidade da educação... A forma como superamos as instabilidades que se intensificaram no primeiro semestre de 2009 despertou atenção.

Uma das repercussões desta mudança de olhar sobre o País é o interesse pela área de relações internacionais, que também ganha espaço com este cenário. De acordo com o professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Marcelo Zorovich, os estudos para quem quer seguir a carreira são contínuos e globalizados. Segundo ele, o profissional deve buscar um “entendimento multidisciplinar”. Para isso, Zorovich afirma que é preciso estar atento à “atualização dos fatos e como eles se inter-relacionam”. O professor acredita que, em geral, o brasileiro tem certa vantagem por ser versátil, criativo e ter facilidade em se adaptar.

Perfil - Marcelo Rocha e Silva Zorovich é professor do curso de Relações Internacionais com ênfase em Marketing e Negócios, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). Ele se dedica atualmente a projetos de gestão internacional e se prepara para o doutorado, além de fazer estudos sobre o mercado asiático - incluindo o entendimento do mandarim. Zorovich estudou na ESPM, no Mackenzie, fez MBA na Faculdade de Economia e Administração (FEA-USP), possui mestrado em Relações Internacionais, na Université Laval, em Québec, no Canadá, e ainda fez um breve estágio na Organização Mundial de Comércio, através do The Graduate Institute of Geneva, na Suíça. O professor trabalhou no Canadá, país em que conheceu melhor o sistema e a abrangência da ONU. Zorovich fez cursos de extensão na China, e estudou inglês, francês, alemão e espanhol. A experiência profissional foi construída, inicialmente, numa empresa familiar, mas, logo depois, o especialista ingressou no mundo corporativo, passando por empresas como HP, Nielsen Company, a KantarWorldpanel e a Warner Lambert. Nelas, realizou e liderou trabalhos em companhias como Nestlé, Unilever, P&G, TCS-Índia, BAT, Philip Morris, KraftFoods, Johnson & Johnson e Nokia.  

Ricardo Xavier RH - Quais as principais transformações que o profissional de relações internacionais deve acompanhar?

Marcelo Rocha e Silva Zorovich – As exigências do mercado de trabalho, a configuração do sistema internacional contemporâneo, a contínua relação de poder entre os países e a emergência de novos players que ganham maior espaço na agenda, incluindo o papel das grandes corporações, de blocos econômicos e organismos internacionais, sem deixar de abordar os potenciais conflitos comerciais, políticos, religiosos, nucleares e fronteiriços. Acredito que a economia também mereça atenção especial. É preciso observar as turbulências no mundo, sobretudo as oriundas do jogo do poder econômico, político, financeiro e comercial. Há outras questões que poderíamos citar, como a maior especialização nas áreas de gestão internacional de Recursos Humanos, o tráfico internacional de drogas e pessoas, o setor energético, os recursos naturais, a área agrícola, as mudanças climáticas, os movimentos imigratórios, a fome, os refugiados e os direitos humanos.

Ricardo Xavier RH - A qualidade da educação brasileira tem sido muito discutida. A grade curricular dos cursos de relações internacionais no Brasil é adequada às exigências globais?

Zorovich - Acredito que a maioria dos cursos de RI ainda privilegie a formação tradicional. Neste aspecto, defendo que exista uma orientação, como fazemos na ESPM - combinando a ênfase também na área de marketing e, sobretudo, em negócios internacionais. Estes incluem uma grade interdisciplinar, associando não só as disciplinas tradicionais, mas também a exposição para que o aluno saia como “um diplomata corporativo”, podendo se tornar, um dia, um executivo em distintas empresas, consultor ou empresário. Ele poderá eventualmente circular na área de comércio internacional, marketing internacional, ou mesmo na carreira diplomática tradicional, em agências de desenvolvimento, promoção comercial, consulados, embaixadas e no terceiro setor.

Ricardo Xavier RH - Qual o principal diferencial do profissional brasileiro de relações internacionais?

Zorovich - A versatilidade, a criatividade e a facilidade de adaptação ao “outro”, que estão associadas a toda a nossa história, cultura, formação do país, e também à necessidade de sempre termos que “correr atrás”  e nos preparar, para alguém que, em geral, era ou sempre foi “mais forte”.

Ricardo Xavier RH – E o principal gap?

Zorovich - A disciplina e, muitas vezes, a informalidade e o improviso.

Ricardo Xavier RH – E as possibilidades da carreira em relações internacionais em tecnologia?

Zorovich – A área de tecnologia, em relação a perspectivas e desafios, favorece que o profissional de RI tenha mais acesso às informações, rapidez para consultas e utilize ferramentas no ambiente de negócios, além de evitar possíveis guerras cibernéticas e o vazamento de informações. A “segurança tecnológica” é, muitas vezes, um risco para quem trabalha em áreas estratégicas. O investimento contínuo em tecnologia é essencial para as áreas de segurança, monitoramento e tomada de decisões.

Ricardo Xavier RH – Outros segmentos bastante procurados são o terceiro setor e a área cultural. Quais as perspectivas neles?

Zorovich - Levando em conta as ONGs, inclusive as internacionais e a responsabilidade social, o profissional poderá desenvolver trabalhos nas áreas de cooperação e direitos humanos, em campos de refugiados, com refugiados, imigrantes, e em áreas de conflito. Na área cultural como um todo, dá para expor mais o que o Brasil oferece em termos de recursos e riqueza cultural, a forma de exposição e da cultura em geral.

Ricardo Xavier RH – E as possibilidades da carreira na interface com relações governamentais?

Zorovich - Essa área de relações governamentais oferece oportunidades nos setores público e privado. Os eventos esportivos de 2014 e 2016 podem favorecer esta parceria, assim como a área de segurança.

Ricardo Xavier RH - O que é preciso, em síntese, para um profissional brasileiro construir uma carreira sólida na área de relações internacionais?

Zorovich - Em primeiro lugar, dedicação contínua aos estudos. As áreas se integram e o profissional deve buscar um entendimento multidisciplinar, considerando, por exemplo, história, economia, direito, ciências políticas, sociologia, negócios, geografia, línguas e meio ambiente. De fato, tudo isso é complexo, mas o dinamismo das relações internacionais requer do profissional uma constante atualização e perceber como os fatos se inter-relacionam. E como podem, de alguma forma, impactar as negociações entre os diversos atores do sistema internacional, nas relações entre os países e organizações, seja no âmbito público ou privado, ou mesmo, na combinação entre ambos.

Ricardo Xavier RH - Os especialistas dizem que o Brasil se saiu muito bem da crise internacional, e que muitos investidores estrangeiros agora priorizam o País. O senhor concorda?

Zorovich - O momento brasileiro é muito propício, sobretudo pelos avanços que o País tem obtido, por exemplo, na economia. Os principais indicadores têm comprovado isso. Temos um mercado consumidor aquecido, em parte movimentado pelo acesso e desenvolvimento do consumo da classe média. O nível de desemprego atingiu os menores patamares históricos, além do “bônus demográfico” que experimentamos. Há um processo de transferência de renda de alguns dos países ricos para nações em desenvolvimento. As multinacionais estão muito pressionadas não só para fazer “resultados” no país, como também para “exportar a lucratividade” para suas matrizes; pressionadas, muitas delas, pela crise que assola os Estados Unidos e a Europa. Temos agora, de acordo como o último censo, 190 milhões de pessoas. Isso, em termos populacionais, nos coloca atrás da China, Índia, dos Estados Unidos e da Indonésia. As decisões nos fóruns internacionais não podem mais ignorar o peso do Brasil e dos demais países potenciais e emergentes. O processo decisório foi ampliado e está atrelado a mercados cada vez mais interdependentes.

Ricardo Xavier RH – Depois de passada a turbulência, qual a imagem do Brasil lá fora?

Zorovich - Entendo que a imagem seja em parte positiva, em função dos resultados e indicadores macroeconômicos e da maior visibilidade internacional. No entanto, há também aqueles que reconhecem que o País ainda tenha que superar as desigualdades sociais, investir fortemente em educação, infraestrutura e segurança pública. Esta última questão ainda afasta muitos estrangeiros. 



   

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